segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Aquele vizinho chamado Preconceito Racial

Dia desses, na rede social de um amigo, rolou um curto debate sobre cotas raciais. 

Entre defesas bem argumentadas e ataques falhos, limitei-me a alguns likes e nenhum pronunciamento. No entanto, o assunto não saiu da minha cabeça...

Lembrei-me da minha primeira boneca, que na verdade era um boneco. Catarino era bem branquinho, poderia mesmo ser meu filho.

Lembrei também do primeiro programa de TV que despertou minha paixão. Deste, uma apresentadora branca, loira, de olhos azuis, saía de uma grande nave. Poderosa. Rainha.

Cresci assistindo desenhos que, quando não eram de animais falantes, me representavam muito bem em personagens brancas como eu. Por muito tempo, minha preferida foi Sarah. Aquela do Cavalo de Fogo. Branca, loira, de olhos azuis... Lembram?

Já mais velha, rendi-me às novelas por um tempo. Pouco, confesso! Quem nunca assistiu à obra de Manoel Carlos, né? Com suas Helenas - brancas - felizes (ou não) e suas empregadas - negras.

Fui assinante de algumas revistas voltadas para adolescentes... Mas nunca precisei ler as raras colunas de dicas voltadas às adolescentes negras. Duvidosas, inclusive, limitavam-se a coisas do tipo "como alisar meu cabelo" ou "como diminuir o volume" e afins. Também nunca fui excluída de uma brincadeira ou círculo de amizade por causa de minha cor de pele. Sou branca.

Identifiquei-me em personagens de desenhos, novelas, séries, revistas, livros... Nunca tive o menor problema com isso.

Na escola, em meio a meus lápis de cor, tinha um "cor da pele". E ele era bege.

Quando tinha uns 12 anos, minha brincadeira preferida era "Barbie". Junto de minhas amigas, montávamos uma casinha, e cada um escolhia uma das bonecas para "ser" na brincadeira.

Nessa época, uma de minhas melhores amigas era negra. Já existia uma amiga-da-Barbie negra, mas nós não a tínhamos, ainda era mais cara e difícil de encontrar aqui no interior. Minha amiga tinha de "ser", então, uma das loiras, de cabelos lisos que nós tínhamos.

Quando meus avós foram pela primeira vez aos EUA, tratei logo de pedir a Christie - uma das amigas negras. Eles me trouxeram a Barbie Patins. Loira, cabelo longo, liso, blá-blá-blá...

Hoje as coisas começaram a mudar. Mas ainda encontram-se bem longe do que seria ideal. O espaço ocupado pelas representações negras ainda me soam como "cotas". O que é triste. Porém, necessário!

Ainda é preciso muito mais que uma 'Helena' negra, bebês fofos - e negros - nas propagandas de fraldas e leite, e revistas que substituam o "Alise seu cabelo em 6 passos" por "Como manter seu cabelo naturalmente armado". Mas já é o começo.

Post's como o do meu amigo citado lá em cima, ainda gerarão divergências de opiniões e conflitos com aqueles que ainda insistem em uma visão superficial da problemática.

É histórico. E nada distante da minha ou da sua vida.

Basta senso crítico e um "abrir de olhos" que muitas vezes nos negamos a fazer!

Mas, quando eu olho para trás, permito-me os óculos de Pollyanna por uns instantes, e inspiro um leve "estamos no caminho certo".


Sobre o Autor:
Liza Alvernaz | Eliza Alvernaz |  Twitter - Skoob
Pedagoga, especialista em Supervisão Escolar e Gestão de Ensino. Leitora compulsiva, libriana desastrada, apaixonada por filmes e séries, viciada em internet e corujas. Mora no interior do Rio de Janeiro, mas não desiste de ganhar e mudar o mundo!

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