25 de janeiro de 2015

Resenha | Se eu fechar os olhos agora (Edney Silvestre)

Título: Se eu fechar os olhos
Autor: Edney Silvestre
Editora: Record
Número de páginas: 301

Sinopse: Numa pequena cidade da antiga zona do café fluminense, em abril de 1961, no dia em que Yuri Gagarin saiu da órbita terrestre, descortinando um universo de possibilidades para a humanidade, dois meninos de 12 anos ? de classe média baixa, um filho de ferroviário, outro de açougueiro ?, encontram o corpo de uma linda mulher, que foi morta e mutilada, às margens de um lago onde vão fazer gazeta. Eles não aceitam a explicação oficial do crime, segundo a qual o culpado seria o marido, o dentista da cidadezinha, motivado por ciúme. Ele era frágil demais para o ato necessário a tanta devastação. Começam uma investigação ajudados por um velho que mora no asilo da cidade, um ex-preso político da ditadura Vargas. Acabam descobrindo não só a verdade sobre o crime mas também toda a hipocrisia de uma cidade de coronéis que, mesmo numa época em que o Brasil caminha para a industrialização, tentam a qualquer custo manter o poder absoluto. Para os meninos, um terrível caminho de amadurecimento e chegada à vida adulta.






Se eu fechar os olhos agora" é um romance por gênero e não porque tem um casal apaixonado e que deseja um amor eterno! Quem ler a sinopse perceberá que a história acontece em torno de um crime. Eu acrescento que "acontece" porque a história tem, acima de tudo, uma amizade muito bonita, genuína, espontânea, reveladora, descobridora e comovente de dois meninos de 12 anos. Uma amizade, aliás, daquelas típicas que todo mundo quer ter na vida.

Tem um texto fácil, dinâmico, inteligente, com os detalhes necessários e que nos faz envolver no todo. A gente procura explicações sobre o crime, mas sempre há uma surpresa vinda para nos fazer refletir novamente. Tem um desvendar surpreendente e um final lindo, como uma grande amizade precisa ter.

Os protagonistas se deparam, no mês de abril de 1961, pouco antes da instauração da Ditadura Militar, com o corpo de uma mulher, cortado em pedaços, na beira de uma lagoa. Eles não aceitam a justificativa oficial do assassinato, que incrimina o cônjuge da vítima, um dentista, considerado fisicamente incapaz, pelos adolescentes, de ter cometido o crime; a motivação seria uma crise de ciúmes.

Os meninos se unem a um idoso que habita no asilo do mesmo município, um antigo prisioneiro político durante a Ditadura do Presidente Vargas, e passam a procurar clandestinamente os verdadeiros culpados. Os garotos pertencem à classe média baixa, em uma cidade ainda dominada pelo sistema coronelista; um é descendente de açougueiro, e o outro de um trabalhador da ferrovia local.

A história acompanha o desenvolvimento emocional dos dois, que passa por vias sinuosas, desde um estado de inocência original até a perda desta condição, quando eles descobrem o que realmente aconteceu. A verdade envolve a revelação de eventos político-sociais que caminham nas sombras, a manifestação de uma realidade que oculta, entre outras coisas, a hipocrisia da sociedade local.

Neste enredo comovente o escritor demonstra, do alto de sua vivência jornalística, que as aparências sempre ocultam uma realidade paralela, na qual os fatos transcorrem bem distantes do olhar público. Esta é uma das facetas existenciais que se desvela diante da mente atenta e curiosa dos dois protagonistas.

De um lado, tudo parece se desenrolar inocentemente, como se o mundo passasse por um reencantamento. O Homem se dirige à Lua, representado pelo russo Yuri Gagarin, e essa viagem descortina novas promessas no campo da tecnologia, além da possibilidade de um mundo melhor.

De outro, os meninos se defrontam com violência, crueldade, um poder inacessível, capaz dos piores crimes, que normalmente permanecem impunes, tudo mesclado a perversões sexuais, deterioração da vida política, em um contexto histórico no qual o país ingressa na era industrial.

Edney Silvestre teceu sua obra ao longo de seis anos, dosando ingredientes de uma boa novela policial, dados históricos e romance de formação, gerando, assim, uma narrativa arrebatadora e pungente, capaz de prender o fôlego do leitor das primeiras páginas até a última linha; além disso, feito extraordinário, conquistou de tal forma a crítica que o livro lhe valeu o cobiçado Prêmio Jabuti.



Sobre o Autor:
| Natalia Menezes |  Twitter  |  Todos os posts do autor
Amante de futebol, música, filmes e livros, sempre foi apaixonada por histórias, seja lá de qual maneira forem contadas. Ama tanto lidar com o abecedário em forma de frases e parágrafos, que acabou se formando em Letras.

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