quarta-feira, 6 de maio de 2015

Crônica Dia das Mães

Todo mundo diz que a mulher nasce com dom maternal em si e que todas as mulheres têm o sonho de ser mãe. Não sei se concordo plenamente com isso. Até acho que por ser o Ser que dará a luz, biologicamente já temos o pressuposto para tal função, mas definitivamente não são todas que querem e estão preparadas para o cargo. Digamos que a maioria, para ser mais justo.
A verdade é que é sim muito cobrado de nós que temos que ser mães. A sociedade exige, a família cobra, os amigos esperam e os vizinhos falam. Só que a meu ver, cada um tem um tempo, um momento, uma história. Vamos do início...
A mulher se libertou (ou ainda tenta se libertar) de uma sociedade machista, preconceituosa e desigual. Ao ir para o mercado de trabalho, ela rompe barreiras, luta por ideais, busca outro sonhos, rompe com sonhos que não eram delas e sim uma imposição dura do meio que vivia e muda as relações familiares de antigamente. Não estou criticando, pelo ao contrário. Elogio, aplaudo, me orgulho e faço questão de ser essas mulheres que buscam seu caminho por si e lutam por sonhos e desejos verdadeiramente seus e da sua maneira.
O que muitos não entendem é que essa mudança de atitude, comportamento, pensamento - ou seja lá a forma como queiram chamar - não anula a mulher na sua essência. Ela pode ser essa valente do mercado de trabalho, encarar os homens de igual para igual, ter direitos como o sexo masculino, ter atividades jamais imaginadas para o chamado sexo frágil e mesmo assim encarar o "padecer no paraíso". O que se deve ter em mente é que agora a mulher escolhe quando quer isso, quando está pronta, quando está madura, quando tem o pai certo (ou que ela acha que é ou pode ser o certo), enfim, a mulher não abriu mão de ser mãe, ela só se deu o direito de escolher esse momento, que, afinal, todo mundo diz que é o mais importante de sua vida.
E é por isso que hoje resolvi escrever o lado das não-mães cobradas por todos à maternidade. Primeiramente, não é fácil. Os anos mudam, a tecnologia evolui, tabus caem e as pessoas ainda acham absurdo você chegar aos 30 sem ter tido filho. Eu sei, eu sei, minhas avós mal passavam dos 20 sem ter o primeiro filho, no máximo 25 e já era muito tarde, mas peraí, eu não sou a minha vó!!!
Cobrança número 1: A Sociedade.
Você está muito feliz no seu trabalho e uma colega chega e diz:
- Naty, fiquei sabendo que você está grávida. Parabéns!
Eu sem ação respondo: - Não estou grávida! – E imediatamente penso que preciso intensificar minha dieta, afinal, a mulher acha que estou grávida e as grávidas ficam barrigudas por motivos óbvios. Ela vai e responde:
- Não está não? Ué, me contaram que você está grávida!
Outra colega que estava passando na hora e ouviu o comentário diz:
- Não é ela não. É a outra Naty.
A colega que se enganou de Naty volta a falar:
- Ah ta! Achei que fosse você. Mas você também é tão novinha, que pode esperar mais um pouquinho. Não tem nem 25 anos ou no máximo isso, ainda dá tempo.
Eu meio assustada com o comentário "ainda dá tempo" – parece até que estamos falando de horário de ônibus – respondo:
- Não sou tão novinha, mas também ainda não sou o que chamam de velha, então, acredito que dê tempo sim. Esse ano faço 30 anos.
A colega arregala os olhos e diz:
- 30 anos??? Ah! Então está na hora de providenciar um. Já tem namorado? Tem que arrumar, senão vai acabar ficando encalhada.
Ok, com esse comentário eu me senti com 100 anos e não 29. E encalhada? Gente, eu posso ser encalhada o quanto quiser, que mesmo assim poderei ter filhos, não sei se as pessoas sabem. É uma necessidade de estimular e impor famílias tradicionais, como se você fosse obrigada a casar para ter filhos. Também não sei se as pessoas sabem, mas tem muitas mães que não casaram e seus filhos não vieram da cegonha.
Cobrança número 2: A Família.
Pertencer uma família grande (no meu caso muito grande) tem seu lado bom, mas podem acreditar, tem um lado muito ruim também. E a cobrança para ter a sua própria família é um delas. Ainda mais quando se tem tias, primas e tias-avós distantes e que só te vêem uma vez na vida e outra na morte (ou quase isso). Você pode ter descoberto a cura da Aids, tem acabado com a fome na África, com a seca no Nordeste ou a guerra no Oriente Médio. Nada disso importa. O importante mesmo é você ter uma aliança na mão esquerda (ou pelo menos na direita) e uma criança para apresentar "essa daqui é a Tia Teteia. Dá um beijo na tia!" (ou no mínimo que você esteja vomitando até seus órgãos porque está no início da gestação, época de muitos enjoos).
Não demora nada para a conversa chegar à pergunta "o que você tem feito da vida?" e sempre acaba em "você tem que arrumar um moço bom e construir seu lar e sua família. Marido e filhos são muito importantes para a formação da mulher". Formação da mulher? É sério isso? Até acredito que o casamento e, principalmente, a maternidade sejam experiências enriquecedoras e que como Seres Humanos, que amamos, aprendemos, precisamos do outro, queremos dar e receber carinho, seja válido para quem quer ter tudo isso em sua história. Mas não significa que se você não quer ou não tenha ainda, você seja incompleta.
A verdade é que num passe de mágica você era só uma solteira feliz e tranquila sem querer atropelar nada da sua vida e de repente você está tendo que anotar a oração de Santo Antônio, quando deve fazer a novena do mesmo santo, se não der certo, quando deve fazer a Novena de São Judas Tadeu (Santo das causas urgentes e missões impossíveis) e para engravidar logo (Logo? Que logo é esse, gente?) anotar a simpatia para engravidar. Que no meu caso, por causa da idade (lembrando que tenho 29 anos) era simpatia para ter gêmeos. É coisa simples:

Providencie uma pequena caixinha branca de papelão, dois pares daqueles pequenos sapatinhos de bebê, dois corações de papel na cor vermelha, duas estrelas de papel alumínio e duas chupetas azuis (meninos), rosas (meninas) ou amarelas (meninos e meninas) – escolha a cor delas conforme o sexo desejado para os gêmeos. Coloque tudo dentro da caixinha branca de papelão e deixe-a separada. Ao nascer do dia seguinte, erga a caixinha aberta em direção ao Sol e diga as seguintes palavras:

"Astro Rei, que proporciona fertilidade aos campos e aos animais, traga sua poderosa energia para dentro do meu ventre e me ajude a obter a felicidade em dose dupla."

         Após proferir as palavras fecha a caixinha e guarde-a em um lugar seguro. Quando os gêmeos nascerem, dê a eles de presente os sapatinhos utilizados nesta poderosa simpatia para engravidar de gêmeos.
E se não funcionar, parte logo para o desespero e tenta a simpatia para engravidar urgente. Não interessa se vão vir um, dois, três, quatro ou cinco filhos, afinal, vêm a quantidade que Deus achar melhor para mim, o negócio é ter filho para a próxima festa de família. Também é simpatia simples:

Para engravidar urgente, faça a seguinte simpatia: mande rezar 16 missas para as avós e bisavós, tanto maternas quanto paternas, e peça para que elas ajudem a realizar o seu sonho de ser mãe.

Fica a dica para quem está nessa mesma situação que eu, porém resolveu se render ao clamor familiar. Tenho duas certezas quando acabam esses eventos da minha família: estou completamente exausta de tanto ouvir e fazer anotações e graças a Deus só encontro esse povo uma vez na vida outro na morte (ou quase isso).
Cobrança número 3: Os Amigos.
Amigo que é Amigo não deixa de conviver com você casando, tendo filho, mudando de país ou de planeta. No entanto, é claro que com as mudanças comuns da nossa existência, os assuntos vão se modificando também. E, no meu caso, quando minhas amigas resolvem contar umas para outras as experiências incríveis de seus filhotes, eu me sinto um peixe fora d'água.
É claro que tem história hilária e que é uma delícia de ouvir. Até porque criança é tudo de bom (meu ponto de vista) e como não rir ou se encantar com certas travessuras? Só que tem horas que você não tem mesmo o que falar. Exemplo: Minhas amigas outro dia estavam falando sobre papinha de bebê. Em que contexto na minha vida eu consigo encaixar esse tipo de alimentação? Nenhum. Elas empolgadonas falando dos sabores que são mais gostosos, do valor nutricional (pensei que só eu reparasse nessas coisas por causa das minhas dietas) e que tipo de vitaminas tinha nesses produtos. Eu sei que o papo foi longo, eu aprendi muito e por fim já estava pensando "vou passar a comer papinha para ter assunto da próxima vez".
Pior mesmo é quando você fica muito tempo sem ver uma amiga e quando finalmente sai esse encontro – ela mãe e você não – a primeira coisa que ela quer saber da sua vida é: "Vai ter filho quando?". Bom, vou ter filho quando eu quiser, puder, achar que tenho condições e quando existir um pai (que não estou falando que necessariamente será meu marido, pode ser que sim, pode ser que não, mas que seja alguém presente na vida da criança), pois não sei se é de senso comum, mas apesar da tecnologia ter avançado muito, ainda não é possível fazer filho com o dedo.
Agora difícil mesmo é quando você encontra aquela amiga que repara tudo da sua vida e vive te dizendo que temos que seguir as normas da sociedade corretamente (como se isso fosse realmente sinônimo de felicidade), o que inclui casa própria, casamento heterossexual, divisão racial, social e financeira e ter filhos, claro, e para te alfinetar a criatura vem te contar que a prima mais nova dela vai ter o terceiro filho na semana que vem. E ela emenda: "Agora só falta você, amiga!". A primeira vontade é acabar com a amizade, mas depois você respira fundo, sorri e responde: "Se Deus quiser não vai demorar". E vida que segue.
Cobrança número 4: Os Vizinhos.
Vizinho é algo engraçado porque têm uns que são fofoqueiros mesmo, outros moram perto anos e mal vê e outros são praticamente da família. Mudei-me faz pouco tempo e com isso precisei conhecer a nova vizinhança.
Um belo dia uma vizinha vem aqui em casa para falar com minha mãe e entrou para ver como a casa ficou. Ela ainda não me conhecia. Minha mãe fez as apresentações, disse que ainda não me conhecia porque eu estava trabalhando em outra cidade e a nova vizinha perguntou a minha idade. Quando respondi, foi automática a resposta dela:  
- Tem filhos?
Tive vontade de responder: "você está vendo alguma criança aqui em casa?", mas você mantém a linha educada e responde:
- Não, tenho ainda não. Um dia terei.
Ela não satisfeita pergunta:
- É casada?
Deus, por que as pessoas associam tanto casamento com filhos? Porque é um mandamento da sociedade e da maioria dos preceitos religiosos do nosso país. Ok, pergunta idiota minha. Por fim, com tudo isso estão quase me convencendo a casar para ter filhos. Mentira! Não estão não!
Cobrança número 5: Eu mesma.
Não chega a ser uma cobrança mesmo. É mais a necessidade de manter viva em mim a vontade de ser mãe. Não abrir mão desse sonho, independente de pressão ou das pessoas envolvidas nessa pressão. Apesar das histórias contadas e dos quase 30 anos, como uma grande parte das mulheres quero sim a maternidade. Acredito de verdade que deve ser algo muito importante e engrandecido. Que faz a gente rever a vida, os valores, as ideias e os sentimentos ou não, só amplia o que temos.
Como filha, tive uma mãe presente, exigente, amorosa, dedicada, uma mãezona mesmo, me faz querer ser tudo isso para outra pessoa, me faz querer que o mundo saiba mais quais são os meus princípios através de outras gerações e que mais pessoas possam continuar a nossa história.
Não sei se vou casar, não sei quantos filhos vou ter (mas queria ter 3), nem quando vai acontecer. Só peço a Deus que aconteça e que seja sempre um grande ensinamento, uma grande caminhada, um grande aprendizado, um grande final feliz, se é que vai ser mesmo um final.
Felicitações:
Desejo a todas as mães um lindo dia. Um dia, aliás, que, literalmente, é todo dia. Que vocês possam sempre ser reconhecidas e amadas por seus filhos, independente se são mães biológicas e do coração, só do coração, emprestada, segunda mãe ou mãedrasta. O importante é que essa data seja sempre sinônima de amor.
Desculpa se o texto não ficou engraçado como deveria ou se não agradou a você que está no time das que tem filho. A ideia era falar um pouco sobre como é para uma solteira passar pela fase anterior a que vocês estão. Podem deixar que quando eu for mãe, irei escrever um texto falando do outro lado. E espero que seja ainda melhor escrever sobre esse tal de padecer no paraíso que tanto falam.

FELIZ DIA DAS MÃES!!!

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Sobre o Autor:
Liza AlvernazNatalia Menezes |  Twitter  |  Todos os posts do autor
Amante de futebol, música, filmes e livros, sempre foi apaixonada por histórias, seja lá de qual maneira forem contadas. Ama tanto lidar com o abecedário em forma de frases e parágrafos, que acabou se formando em Letras.




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Um comentário:

  1. Mandou muito bem, Nat, é exatamente assim, pois eu com meus 33 completados essa semana, sei muito bem como é isso e penso como vc. O post ficou sim engraçado, ri imaginando vc nas situações contadas. Eu tenho cobrança da família, agora de amigos nem tanto assim, pq tenho muitas que tb não têm filho ainda. Tb quero casa, ter filho, só ainda não aconteceu, simples assim. Se tiver que acontecer eu sei que vai e não fico arrancando os cabelos por conta disso.
    Beijocas!
    www.viciadosemleitura.blog.br

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