segunda-feira, 22 de junho de 2015

Resenha | Noites Brancas (Fiódor Dostoiésvski)


"Noites Brancas" - Autor: Fiódor Dostoiésvski- Editora: 34 - Páginas: 96

Sinopse: Numa iluminada noite de primavera, à beira do rio Fontanka, um jovem sonhador se depara com uma linda mulher, que chora. São Petersburgo está mergulhada em mais uma de suas noites brancas, fenômeno que as faz parecerem tão claras quanto os dias e que confere à cidade a atmosfera onírica ideal para o encontro entre essas duas almas perdidas. Em apenas quatro noites, o tímido rapaz e a misteriosa Nástienhka passam a se conhecer como velhos amigos, mas algo vem atrapalhar o desenrolar romântico deste fugaz encontro. Publicada em 1848, esta história faz parte do ciclo de obras que Dostoiévski (1821-1881) criou após amargar uma forte desilusão amorosa e é a última escrita antes da prisão e do período de exílio na Sibéria.

Resolvi conhecer a literatura de Dostoiévski que, vergonha, ainda não havia lido nada. Por medo de iniciar por um dos mais renomados, como Crime e Castigo, por exemplo, e depois frustrar-me com possíveis leituras 'menores', iniciei por uma novela que já se encontrava em minha estante: Noites Brancas.

A edição que eu tenho, ganhei em uma palestra de Educação a que assisti há um tempo e faz parte da coleção de livros cedidos pelo Ministério da Educação para as Escolas e Instituições Educacionais em geral. A tradução é do Nivaldo Santos e, pelo que consta, é a primeira versão traduzida diretamente do Russo, logo, considerada uma das mais fiéis ao original.

Mesmo não falando nenhum outro idioma, nem mesmo inglês, tradução é algo que me incomoda muito. Eu penso que um bom tradutor é aquele que não é sequer notado durante a leitura. Aquele que consegue encarnar de fato do autor original e nos transpor sua escrita com o máximo de precisão possível. Quando, mesmo sem ler o original, por conhecimento prévio da escrita do autor, notamos que alguma tradução foge muito ao que deveria propor, algo errado há. Traduções que tiram a essência do autor, com o intuito de "facilitar" a leitura, não deveriam nem ser levadas a sério. Não nos subestimem, tradutores. Façam seu trabalho da melhor maneira possível e deixem que nós decidimos se alcançamos a leitura ou não! Please!

Enfim... Como tinha o interesse de adentrar na Literatura russa através de Dostoiésvski, tomei o cuidado de começar com uma tradução bem recomendada, mas mesmo assim, fiquei com a sensação (puramente baseada no "achismo") de que não é tão fiel assim... Superemos!

"Noites Brancas" foi escrito em 1848. Um livro de uma época que muito se afasta de nós exige que entremos na pele dos personagens e nos transportemos para a época em questão, do contrário, nada fará sentido.
Não estamos acostumados a personagens de 26 anos tratados como senhores, velhos, e considerados como já tendo vivido "uma vida inteira". Mais surreal ainda é o amor que nasce do primeiro olhar. Mas, de novo, superemos! Encarnar a época é essencial para que a leitura flua. E agora, falo como professora, didaticamente, para que nada nos passe despercebido!

Essa obra se aproxima muito do Romantismo, mesmo tendo sido escrita em uma época em que tal característica era duramente criticada pelos realistas. O que desperta interesse e curiosidade de imediato.

A história se passa em São Petersburgo, em um período do verão em que o sol não se põe totalmente e, por isso, as noites possuem um ar meio "fantasmagórico". Diante disso, o autor consegue criar todo o clima pro enredo que se segue, utilizando a cidade como um importante personagem na trama.

O livro possui apenas 87 páginas, e vem dividido em cinco capítulos, sendo eles: "Primeira noite", "Segunda noite", "Terceira noite", "Quarta noite" e "Manhã".
O narrador é um homem solitário, preso em livros e sonhos, sem relacionamentos anteriores com o sexo oposto, que vive caminhando pelas ruas e vielas de São Petersburgo e, por causa desse hábito, desenvolveu certo afeto pelo ambiente.

Em uma de suas caminhadas, avista uma jovem, também caminhando, com semblante perdido e tão solitária quanto. Imediatamente desperta interesse e passa a imaginar uma forma de aproximar-se dela. Enquanto pensa como fazê-lo, e quase desiste por não saber como proceder, a oportunidade é jogada em seu colo: um outro senhor aproxima-se da jovem e tenta abordá-la para molestá-la. Imediatamente, nosso narrador aproveita a oportunidade surgida e salva a moça do abusador. Conquistando, assim, sua simpatia, atenção e agradecimento.

De braços dados, os dois seguem o caminho juntos para que a jovem tenha companhia protetora até em casa.

Na primeira noite conversam por algumas horas, o que se torna suficiente para que cresça o sentimento que já fora despertado dentro de nosso narrador, descrito como um Sonhador, pelo próprio.

Uma das partes mais interessantes da história é justamente quando ele discorre sobre o fato de ser um "Sonhador". Durante as 87 páginas de leitura, em nenhum momento seu nome é dito. Então, através dessa primeira explanação de seus sonhos solitários, o personagem personifica-se para nós, leitores, como sendo mesmo "o Sonhador".

Já a jovem, apresenta-se como "Nástienka" que, através de uma nota de rodapé, tomamos conhecimento de que se trata de um diminutivo e forma familiar de Nastassía.

A jovem tem dezessete anos e concorda em reencontrar o sonhador para uma segunda conversa, na noite seguinte. E é ali que a trama começa a tomar uma forma interessante. Descobrimos através da moça que a mesma possui um história paralela a que vinha se apresentando. Ela confessa morar com sua avó, uma senhora cega, dona de uma pensão, que a obrigava a ficar presa a ela, literalmente, por um alfinete. E que, um inquilino da pensão, ao notar esse desconforto, encontrou uma maneira de se aproximar de Nástienka e tentar levar até ela um pouco de distração. Começando pelo empréstimo de alguns livros, com a desculpa de que seria para ela ler para a avó, sendo assim aceito pela senhora. Mais tarde, novas desculpas, inventou que uns amigos desistiram de lhe acompanhar ao teatro e por isso havia ingressos sobrando e gostaria de levar as duas. A avó aceitou e foram algumas vezes a algumas peças.

Encerrada a temporada de teatro, o inquilino traz uma novidade que soa negativa para Nástienka: ele está deixando a cidade, mudando-se para outro país.
Totalmente desolada, e já apaixonada, a moça toma uma atitude drástica, impulsiva e desesperada: arruma suas malas e vai até o quarto do rapaz, suplicar para que a leve junto. O pedido é negado diante das condições financeiras em que ele se encontra. Mas fica a promessa de seu retorno para que se casem!

A dinâmica de como os amores surgem e intensificam em questões de dias ou até mesmo horas assusta quem não passou nem perto dessa época. Quando eu disse lá em cima que precisamos encarnar os personagens e nos transportarmos para a época, era por isso. São fatos que não nos soam com facilidade. Será que os amores eram banalizados? Ou hoje em dia supervalorizamos esse sentimento?

Mesmo não sendo esse o foco do livro, é o que mais me levou a questionamentos.
Em "Noites Brancas, lidamos com um triângulo amoroso intenso e sofrido. De um lado, o sonhador já apaixonado por Nástienka. De outro, a moça apaixonada à espera de seu grande amor. Todos amores surgidos com a mesma rapidez em que são intensificados. Intrigante, no mínimo.

O livro pauta-se nos encontros e conversas dos dois, onde o Sonhador coloca-se no papel de amigo, mesmo nutrindo todo um amor por ela. Tal posicionamento desperta o carinho da menina.

Fatores do destino surgem e mudam os rumos pacatos da relação amistosa dos dois. Tudo muito rápido.

Afeiçoamo-nos ao narrador de forma muito intensa, através de sua melancolia e realidade em que se encontra. Isso faz com que o desfecho nos toque ainda mais intensamente e faça valer a leitura.

Não é spoiler o fato de ser uma leitura triste, visto que essa é uma das características mais marcantes dos romances de Dostoiésvski.

Enfim... Talvez por falta de hábito em leituras do tipo, falta de conhecimento, ou qualquer coisa assim, foi uma leitura que chamo de intrigante. Apenas. Me surpreendeu pela narrativa fácil e simples. Tinha outra ideia pré-concebida.

Fiquei muito tempo pensando e adiando o temido Fiódor Dostoiésvski e, após lido o primeiro, digo com propriedade: de assustador, só o nome mesmo! =P


Sobre o Autor: 
Liza AlvernazEliza Alvernaz |  Twitter - Skoob |  Todos os posts do autor
Pedagoga, especialista em Supervisão Escolar e Gestão de Ensino. Leitora compulsiva, libriana desastrada, apaixonada por filmes e séries, viciada em internet e corujas. Mora no interior do Rio de Janeiro, mas não desiste de ganhar e mudar o mundo!

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