quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Dia Seguinte (Eliza Alvernaz)



Faltavam poucos minutos para a meia-noite. Poucos minutos para mais um Natal da vida de Alice.

De seu quarto ela observava, pela janela, a tempestade incessante.
Nada parecido com o romantismo dos filmes adolescentes. Não havia flocos de neve, tampouco renas felizes entre uma entrega de presente e outra. Apenas um forte vento, misturado em gotas de chuva que batiam e escorriam no vidro, afastando qualquer pessoa das ruas.

Próximo ao portão de saída, um velho pinheiro apresentava algumas folhas queimadas do sol de antes. Há algum tempo, ele era o primeiro sinal de que o Natal havia chegado, com muitos enfeites, sinos e laços.

Hoje, na cabeceira da cama, um pisca-pisca com algumas luzes falhadas é o que mais se aproxima de uma decoração natalina.

Do andar de baixo, um conhecido “Jingle Bell”. E era este som que embalava as lembranças que vinham à tona naquele momento.

Mesa farta, a família inteira presente, muita conversa e risada - assim era seu Natal de alguns anos atrás.

Ou, pelo menos, a impressão que tinha dele.

A semana inteira que antecedia a data era de preparação.

Separar as bolas coloridas, desembaraçar fios intermináveis, escolher a melhor estrela para o topo da árvore... Cada uma dessas ações sempre fora motivo de diversão! Era a semana mais feliz do ano, nunca tivera dúvidas.

Logo chegavam os primos para correr pela casa com ela e perguntar, insistentemente, a hora da troca de presentes.

Não demorou muito para que percebesse que o Papai Noel era o irmão gordo de seu avô. 

Aquele que só aparecia uma vez ao ano, com a típica roupa vermelha, barba falsa e entoando um forçado “ho ho ho”. Mas a expectativa por sua chegada, as surpresas por trás de cada embrulho, e o brilho nos olhos dos menores, contribuíram para que ela seguisse a fantasia por muito tempo.

Em pouco tempo, a casa ficava tão cheia que era preciso algumas cadeiras e mesas emprestadas.

De seus poucos anos e tamanho, Alice não alcançava o que havia por trás de toda essa felicidade compartilhada.

Ano após ano, divertia-se com as cenas rotineiras que cercavam os festejos. As piadas repetitivas de seu tio sobre o pavê, as reclamações de um e outro por alguns pratos que não ficaram de acordo com o gosto pessoal, as orações e rituais individuais... Tudo se misturava e dava o tom necessário à noite!

Nos dias vinte e quatro e vinte e cinco, todos eram felizes ao extremo, amorosos demais e realistas de menos. Mas este último ela, até então, não percebia.

Reunidos em volta da mesa principal, contavam histórias de infâncias vividas, relembravam parentes que já se foram, antecipavam expectativas para as festas do ano seguinte...

Era comum ter de explicar o porquê de separar as frutas cristalizadas do panetone, assim como eram certos os interrogatórios em cima de seu irmão adolescente e suas possíveis namoradas.

E, mesmo sendo possível prever a maior parte do que aconteceria, nada tirava todo aquele brilho natalino!

Com o passar dos anos, a diversão foi perdendo espaço.

As crianças cresceram e ter de trabalhar até quase na hora da Ceia não é nada estimulante.

A maturidade trouxe a sensatez. E esta carrega com ela uma melancolia que não acompanha os desejos.

Aos poucos, foi percebendo intenções por trás de cada cena. Razões, antes subentendidas, eram repentinamente escancaradas.

O Natal era o mesmo. Mas suas certezas mudaram.

Alice sabia que, ao descer as escadas de seu quarto para a sala, encontraria uma realidade que nada se aproximava das noites mágicas que já vivera ali.

As pessoas eram as mesmas, a rotina seguia inalterada. Mas, naquela noite, a alegria aparentemente natural de antes cederia lugar a algumas horas em que as diferenças são postas de lado. Os amores são intensificados e as dores não têm espaço.
Mágoas são esquecidas. Facilmente substituídas por um desejo automático, e quase obrigatório, de perdão.

Dos erros cometidos ao longo do ano, fica apenas a certeza da absolvição que o espírito natalino traz consigo.

Nesse misto de memórias de um passado recente e a chegada de um presente nada encantador, ela tentava entender quando os laços se resumiram a nós.

Já não era possível camuflar a realidade. E convicções muitas vezes não são satisfatórias.

Já não podia contar com as impressões dos tempos de criança. Significados encontravam-se ao avesso e as representações pareciam turvas.

Guardou, então, toda nostalgia no melhor lugar dentro de si e seguiu para alguns abraços e brindes. Sonhando em escrever uma carta, para um Papai Noel que não vem mais, pedindo de volta as sensações de antes e, principalmente, que elas não fossem esquecidas na manhã do dia seguinte.

Texto publicado originalmente na Coletânea "Presente do Céu", pela Editora Interagir - 2014.



Sobre o Autor: 
Liza AlvernazEliza Alvernaz |  Twitter - Skoob |  Todos os posts do autor
Pedagoga, especialista em Supervisão Escolar e Gestão de Ensino. Leitora compulsiva, libriana desastrada, apaixonada por filmes e séries, viciada em internet e corujas. Mora no interior do Rio de Janeiro, mas não desiste de ganhar e mudar o mundo!

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