segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Cultura do estupro, texto viralizado e tristes interpretações!

Olá, tudo bem com vocês?

Ontem (?) viralizou um texto nas redes sociais em que um rapaz relata algo nada surpreendente e novo. Apenas mais um conto erótico usando "estupro" como tema para sua narrativa. Sim, porque eu quero MUITO e estou fazendo um esforço gigantesco para acreditar que o texto em questão trata-se apenas de uma "fanfic". O que, por si só já dá muito pano pra manga. 



Eu prometi a mim mesma, sobretudo, que não iria fazer "textão" no facebook. Pelo simples motivo de: não queria! 

Meu facebook tem pouquíssimas pessoas e, cada vez que passa, mais eu me sinto em uma bolha de mulheres maravilhosas! É uma troca diária e constante de ensinamento, de desconstrução... E a gente percebe (ou sempre soube) que as que estão fora dessa bolha precisam mais do que "textões" por aí, ou simplesmente não querem saber disso.

Esse era um dos motivos que havia decidido não falar a respeito. 

O segundo motivo, e não menos importante, era simplesmente o fato de eu acreditar que quanto mais falamos de coisas que não merecem, mais chamamos atenção para o assunto. Assunto que algumas vezes é possível deixar passar se não dermos a atenção que o autor dele espera. 

Mas quando dei uma "passeada" pelo facebook notei algo que me deixou muito intrigada. MUITAS, muitas colegas, feministas militantes até, viram poesia no texto. Se emocionaram, acharam bacana da parte do autor... E isso me preocupou MUITO. (sim, sou dessas!)

Primeiro preciso deixar claro um ponto: Não levanto bandeira de que homem não tenha que ter participação em nenhum assunto feminista. Pelo contrário. Se eu 'sonho' e 'luto', com as armas que tenho, por um mundo com menos desigualdade, eu quero mais é que os homens sentem e escutem o que temos pra falar, reflitam e levem isso para seus "grupinhos". 
Mas se o assunto é nosso, eles vão só ouvir, claro. Afinal, nós os ouvimos durante toda nossa existência, não foi? 

Mas o que o rapaz do texto fez está longe de ser algo para acrescentar (que não vou compartilhar, nem citar, nem mencionar, nada disso. Já estou fazendo muito falando sobre o assunto). Ele não falou sobre cultura de estupro. Não contribuiu no que lhe cabia com o assunto. 

Ele simplesmente descreveu um ato sexual, desde quando conheceu a menina, passando por quando descobriu que ela havia sido vítima de estupro e estava há muito tempo sem ser tocada por ninguém, até cada ceninha de como ela teria "se libertado sexualmente desse trauma com ele". Assim, "do nada". Após uma "onda vir e levar tudo embora". 

Não tem poesia nisso! Não tem.

Se esse relato for verdadeiro (não seja, Universo, por favor) essa menina vai ler (pois está viralizado) e vai sofrer tudo novamente. E mais: DUPLAMENTE. Pois além de relembrar todo o seu estupro (que teria sido superado), ela agora - mesmo sem ter seu nome revelado - sabe que a história é dela, que ela quem viveu aquilo, e ela que está mais uma vez sendo invadida. 

No entanto, vamos pelo lado menos doído da coisa (se é que isso é possível). Focaremos na hipótese de que é uma ficção. O texto começa com uma foto que assusta e traz trechos que gera repulsa em quem nunca passou por essa experiência. E eu fico imaginando o que gerou em quem JÁ VIVEU a experiência de um estupro. 

Eu sou contra "censura" literária e vou sempre dizer isso. Não havendo discurso de ódio e afins, beleza! Literatura é literatura. Poesia é poesia. Artigo de opinião é artigo de opinião. 
O rapaz tem o direito de escrever o texto dele? Tem, infelizmente. 

Mas nós também temos o direito de reagir a esse texto, não é mesmo?

"Ah, Eliza, mas você está sendo contraditória...Dizendo que é contra a censura, que ele tem o direito e dizendo "infelizmente"."

Sim, eu sou contra censura literária e jornalística. Sim, eu sou contra a censura do texto do rapaz, por mais que ele me cause ojeriza.
Não é com censura que sonho com um mundo melhor. É com conscientização, com mudança de valores... Utopia? Acho que não... 

Mas, infelizmente, ainda não temos isso, portanto, temos que contar com textos desse tipo por aí!

E, mesmo tendo prometido a mim mesma que não falaria sobre, sucumbi, e cá estou eu. Pedindo a você, leitora, que por acaso viu poesia ou "boniteza" naquele texto, que releia. E o faça mais de uma vez. Não permita-se romantizar uma vítima de estupro, ainda traumatizada, que demonstra diversos sinais de não querer o sexo, que cede a coerção e é salva por um homem. (Porque é isso que acontece e está bem descrito lá, você pode não ter visto porque já estava envolta na "poesia" que lhe envolveu)

Nós não precisamos ser salvas por um homem. Nós precisamos que eles parem de nos estuprar.
Nós não precisamos de mais um fetiche em cima de estupro viralizado. Nós precisamos de homens nos ouvindo e falando para outros homens o que escutam de nós sobre cultura de estupro.

E uma vítima de estupro, não precisa de um macho trepador-salvador. Ela precisa de ajuda psicológica por tempo indeterminado, assistência médica imediata, apoio familiar (se houver), de amigos, pessoas que lhe instruam e contribuam para que busque a Justiça. É isso. 

O rapaz trocou a foto, alguns termos, mas a essência e os piores cenários ainda estão lá! 


Beijos pra vocês, e até o próximo post!
(E que seja mais leve, porque ontem... A cabeça doeu!)


Liza AlvernazEliza Alvernaz |  Twitter - Skoob |  Todos os posts do autor
Pedagoga, especialista em Supervisão Escolar e Gestão de Ensino. Leitora compulsiva, libriana desastrada, apaixonada por filmes e séries, viciada em internet e corujas. Mora no interior do Rio de Janeiro, mas não desiste de ganhar e mudar o mundo!





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