sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Existe vida durante a depressão? - Parte 1

Olá, tudo bem com vocês?

Postei no instagram que falaria sobre depressão no blog mas, nas raras vezes em que anuncio precipitadamente o dia em que algum post será feito, os Astros se alinham de forma para que isso não aconteça. Sendo esse um assunto em que eu queria tratar com a delicadeza e cuidado que ele merece, não poderia desmerecer todos os recados que recebi, todos os relatos, opiniões e postar algo rapidamente apenas para cumprir prazos prometidos.
O post não saiu no dia prometido, mas está saindo de uma forma que nem eu esperava! Com muito peito aberto e coração escancarado, e não apenas o meu, a partir de  hoje algumas pessoas abrirão seus corações para vocês. Pessoas contando suas experiências, pessoas nos dando um suporte... Bem, senta aí. Puxa a cadeira, vamos conversar. Precisei dividir em partes, mas vale a pena acompanhar tudo! 



Começando com o meu relato...

Dia 05 de abril de 2016, (não faz muito tempo, mas posso garantir que será uma data difícil de esquecer), eu recebi uma notícia que me deixou bastante desnorteada. Um diagnóstico médico, na verdade. 

(E se você quiser saber sobre esta história, já contei por aqui em quatro partes, basta clicar em cada um dos números: 1 - 2 - 3 - 4 )

O diagnóstico recebido foi logo no início da tarde. Mexeu comigo, claro. Mas eu fui guardando os sentimentos. Porém, foi necessário repetir a mesma história mais de uma vez, tomar decisões em relação ao trabalho, pois precisaria me afastar e isso mexeria com a vida de outras pessoas.

Nessa hora muitas pessoas disseram: “Sua saúde em primeiro lugar!” Realmente, concordo. Tenho um filho que faz onze anos esse mês, que precisa de mim. Tenho a vida, que tanto amo!!! Mas as coisas não são tão fáceis assim. Não para mim. Eu pensei, sim, na pessoa que poderia ser prejudicada por conta do meu afastamento (e não vou ficar aqui explicando isso, pois não passam de coisas burocráticas). Pensei em muitas coisas. Pensei em ter de ficar em casa, sem poder fazer nada, sozinha, com namorado trabalhando, filho na escola, pensei, pensei, porque se tem uma coisa que eu faço muito nessa vida, é pensar.

E cada vez que eu repetia minha história, explicava meu afastamento, minha doença, o tratamento que teria que iniciar e tudo o mais, era uma lágrima a mais na garganta, no canto do olho, escorrendo pelo rosto, e assim foi indo...
No final do dia, pensando ter resolvido tudo, tomei um banho e de repente comecei a passar mal. Uma dor muito forte no peito, uma sensação de que alguém segurava meu pescoço e me impedia de respirar e então o choro histérico. Eu chorava, gritava, não sabia o que fazer, pedia meu namorado que me levasse a um hospital rapidamente. Olhava meus braços, e os via inchados, a ponto de explodirem. Eu tinha certeza que estava enfartando. 

Fomos ao hospital, eletrocardiograma feito, injeção para as dores e a médica pacientemente me explica que o que eu tive foi uma crise de pânico. E me sugere uma ida à psiquiatra no dia seguinte.

Eu? Com crise de pânico? Como assim?

Eu que me desviro em um dos meus trabalhos para resolver o que puder e estiver ao alcance das minhas mãos e pés. Que em sala de aula, crio mãos imaginárias para fazer além do que posso. Que gosto de sair, tenho paixão por viajar – e só não o faço mais por falta de dinheiro mesmo. Como estaria com crise de pânico? Mas ok, vamos à psiquiatra por desencargo de consciência.

Nas proximidades de onde a psiquiatra atendia, algo me travou completamente. Um medo absurdo. Minha mão suava, de novo algo apertava minha garganta e eu simplesmente não conseguia ir. Disse que não ia. O namorado me convenceu com a firmeza que eu precisava no momento e eu posso dizer que tive muita sorte. Ter começado este tratamento psiquiátrico logo no início fez com que as coisas fossem caminhando juntas: minhas lutas diárias no neurologista, os sintomas novos que iam aparecendo, tudo de mãos dadas com a psiquiatra. Que pôde ir adaptando os melhores medicamentos, de acordo com o que eu precisava.

As crises de pânico foram muito fortes. Não eram apenas medos. Não eram apenas impedimentos de sair de casa ou ir ali ou acolá. Eram medos que tomavam conta do meu corpo em questões de minutos, sem motivo aparente, a qualquer momento, me fazendo tremer inteira, perder as forças das pernas – o que me fez cair várias vezes, quando estava sozinha e, em outros momentos com o namorado em casa, fez com que ele me segurasse e levasse até a cama.



Eu vomitava em cada crise. Muito. O que tivesse dentro de mim. Mesmo que estivesse horas e horas sem comer (o que tornou-se muito comum).
Meu namorado saiu do trabalho algumas vezes e veio para casa me ajudar e quando chegava o cenário era caótico. Eu caída, toda vomitada, tremendo inteira, chorando sem parar, com dores físicas que minha mente produzia. Tudo muito louco.

É muito complicado entender que é a nossa mente nos sabotando. Muito!

Aliada ao transtorno de pânico, veio a depressão. Costumo dizer que é um combo que anda de mãos dadas: Ansiedade generalizada (que sempre tive, e sempre negligenciei), transtorno de pânico e a depressão.

Não sou especialista, estou aqui para compartilhar a minha experiência com tudo isso, apenas. E penso que em cada pessoa a depressão desenvolve-se de uma forma. E cada pessoa enfrenta, reage, sente, vive, de uma maneira única. Mesmo que os sintomas e os relatos sejam similares em vários pontos, em cada um ela deixa a sua marca. Ela modifica cada um de uma forma.

Eu posso dizer a vocês que estou há cinco meses, praticamente, em cima de uma cama. Conto nos dedos de uma mão as vezes que saí de casa sem que fosse para ir em algum médico ou cumprir alguma obrigação burocrática.

Passei por momentos de só dormir: dia e noite.  Momentos de trocar a noite pelo dia. Momentos de passar o dia dormindo e a noite vendo séries. Momentos de só conseguir ler e escrever (porém, nada publicável). Momentos de irritações profundas e constantes. Momentos de extrema sensibilidade. Momentos de só conseguir ficar em silêncio. Momentos de precisar de alguém. Momentos de querer ter muitas pessoas. Momentos de me sentir abandonada por muitos. E muitos, muitos momentos, de não conseguir fazer NADA. Nem concentrar em um filme, livro, série, que são coisas que gosto, que distraem... Nada. É só cama e ver o tempo passar.

A depressão é cruel. Ela te modifica, te faz repensar e pensar coisas que não deveriam ter papel importante em sua vida. E, em alguns momentos, fazem você querer até desistir. Não importa do quê.
Da dor, do que causa a tristeza, do que causa o sofrimento, do que você pensa que potencializa o sofrimento, do que você pensa que piora suas dores.

Você sente-se sozinho, mesmo sabendo que não está. Você pode ter o apoio de pessoas que você ama diariamente, mas você também começa a colocar uma lupa nos pequenos problemas e acaba encontrando-os. Percebe o egoísmo de alguns, a falta de retribuição de outros e, no fim, tudo isso dói mais ainda. Porque a única coisa que você quer, é melhorar. Voltar a ser quem você era. Olhar-se no espelho, não dar importância para quem não lhe dá a mesma importância.



Um dia você quer ficar sozinha. No outro você só quer um abraço.
Um dia, uma mensagem de “tudo bem?”, é o bastante. No outro, você precisa que as pessoas venham saber como você está. E, neste dia, dá vontade de quebrar o telefone, desistir de esperar por quem não quer saber... Você não quer esmola. Você quer atenção, carinho, colo...

É difícil admitir isso, quando pensamos ser autossuficientes. Quando, há muito tempo, vestimos a fantasia da mulher bem resolvida e assim vivemos. Só que a depressão vem, te arranca essa fantasia e você passa dia e noite tentando encontrá-la. Sem ter ideia de quando isso vai acontecer.

Faz uma piada ali no facebook, uma ou outra no whatsapp, disfarça a falta de frequência nas redes sociais por “falta de tempo”, e deixa a quem interessar que saiba.

Mas não é fácil. Não é fácil mandar uma mensagem e não ser respondida. Não é fácil promessas não cumpridas. Não é fácil quando riem de coisas que você vem fazendo por conta da falta de memória e confusão mental por conta dos remédios. Tudo vira um grande problema. Que pode transformar-se em raiva, ou lágrimas sem fim.

Minha psicóloga – MARAVILHOSA <3 – me disse lindamente que, antes raiva do que apatia. E é exatamente isso. Passei muito tempo por um estágio de completa apatia. Não tinha sentimento algum, só falta de vontade. Falta de vontade de sair da cama, de tomar banho, de comer, de namorar, de conversar, de VIVER. Isso passou...

As coisas melhoram um dia, pioram por uma semana, depois melhoram uma semana, pioram um dia. E assim vou vivendo. Fazendo minha parte e tendo a sorte de não ter escutado de ninguém que “eu tenho que reagir”. Se falaram, foi por aí... E “por aí” ficou.

Escuto muito que é "falta de religião". Mas isso escuto sempre, então só me irrita naqueles momentos mais tensos. De resto, tranquilo. E quem realmente tá comigo, que vem aqui, me faz companhia, segura minha mão, olha nos meus olhos e me traz um pouco de alegria, este tipo de comentário não existe. Então... Não me importa!

Eu nunca pensei em tirar minha vida. Tenho muito amor por ela, e um amor maior que tudo isso que é pelo meu filho. Isso me segura aqui. Isso me faz querer melhorar. Mas já tomei vários remédios para dormir, no desespero de estar quatro dias e noites sem dormir nada. Também já tentei pensar em algo para que eu pudesse parar de ser um fardo na vida dos que me rodeiam. Porque é o que eu me sinto. Dando trabalho, atrapalhando...

Esses últimos dias cheguei à conclusão que meu maior problema, no momento, fora o pânico, são as relações sociais. Pequenas coisas me aborrecem. Uma gota, vira um tsunami. E aí eu sinto-me uma verdadeira formiga.



Depressão é bem diferente de “ficar triste por algo”. Porém, se você está em um período de depressão/ou tem, e ainda “fica triste por algo”, tudo piora.
Uma coisa besta me faz voltar ao fundo do poço em questão de segundos. E pra sair de lá.... Remédio, terapia, e muita paciência dos que estão comigo todo dia. Porque, sinceramente, nem eu me aguento! E a última coisa que a gente quer, e acho que aqui posso usar “a gente”, é afastar quem a gente ama com nossas instabilidades emocionais.

Não é fácil. Não está sendo. Mas um passo por vez, vez ou outra alguém sem nem saber me puxa pra trás, mas eu vou vencendo!




Sobre o Autor: 

Liza AlvernazEliza Alvernaz |  Twitter - Skoob |  Todos os posts do autor
Pedagoga, especialista em Supervisão Escolar e Gestão de Ensino. Leitora compulsiva, libriana desastrada, apaixonada por filmes e séries, viciada em internet e corujas. Mora no interior do Rio de Janeiro, mas não desiste de ganhar e mudar o mundo!


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2 comentários:

  1. Sei exatamente o que sente , de verdade ,ontem a noite enquanto conversávamos ,fiquei feliz de ouvir vc dando gargalhadas do que eu tinha falado ,e eu estava falando sério ,era o que eu lembrava .Hoje eu sei que tem sol ,que o azul do céu está lindo ,mas a Dona Depressão ,já me fez chorar tanto e tanto ,que os olhos ardem ,o peito parece que vai explodir ,e a dor ,essa sim ,é violenta ,parece querer abrir meu peito .Eu te entendo ,eu te respeito ,eu sei ,infelizmente eu também sei !

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