quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Minha bolha matriarcal, escolhas e redes sociais! - Por Eliza Alvernaz

Eu não vim a esse mundo a passeio e, fora a morte, esta é uma das poucas certezas que trago comigo. 


"A minha alma tá armada e apontada para a cara do sossego!"


Mesmo tendo tido em casa uma figura masculina - meu avô materno - foram mulheres, em sua maioria, que me cercaram desde a infância e, mesmo sem eu entender exatamente o que se passava (nem elas), eu ia, assim, sendo envolvida em uma bolha de matriarcas. 

Cada qual com sua história individual, me enchia de influências sem que eu nem ao menos me desse conta. 

Minha mãe, divorciada desde que eu era bem novinha, trabalhou muito por mim e por ela. Independente de qualquer coisa, aprendi desde muito cedo que precisava ter independência financeira. Foi com ela, também, que aprendi que a confiança depositada é a chave principal para a honestidade. É possível impôr limites e, ao mesmo tempo, dar asas! 

Por ela trabalhar tanto, quem me cuidou, educou, criou, foi minha avó materna! Como já contei em outros momentos, hoje ela encontra-se em um estágio avançado de Alzheimer, mas foi a partir dela que eu aprendi que é possível educar com rigidez e amor ao mesmo tempo. 

Duas tias foram muito presentes na minha infância e formação. 

A primeira, irmã do meu avô, foi um dos maiores exemplos da minha vida. Infelizmente somos falhos e nem sempre capazes de absorver tudo o que poderíamos. Não sou, nem serei - sei disso - nem um 1/3 do que esta tia foi em vida, mas tudo o que ela representou em minha vida, sem dúvida serviu de exemplo para que, hoje, eu seja um tanto do que sou. Com ela, aprendi bem cedo que a frase "É impossível ser feliz sozinho", de Tom Jobim, é preciso ser interpretada com cautela. Aprendi, em outras palavras: que não preciso de um amor afetivo/sexual. De um(a) parceiro(a) para ser feliz nesta vida! Sim, aprendi mesmo.
Minha tia passou a vida 'sozinha', dedicou-se à família, amigos, desconhecidos... Fez caridade e, também com ela, aprendi que caridade quando feita não precisa ser mostrada, escancarada! Sua vida inteira foi dedicada ao outro. Morou em um quartinho com uma mini cozinha e banheiro, no quintal de uma irmã até morrer. Sem qualquer conforto, luxo ou supérfluo. Mas fazia TUDO pelo outro. E por mim. Nunca deixou que me faltasse nada: nem afetivamente, nem financeiramente. Literalmente deixava de TER, para que o outro tivesse. Porque para ela, nada fazia falta. Ela era deveras feliz e satisfeita com o que tinha!
Foi minha primeira e significativa perda na vida! 
Foi com ela que eu aprendi o significado de "mudar o mundo" e, mesmo que eu não faça nem perto do que ela fazia, é seguindo absolutamente os ensinamentos dela, que "mudo o mundo" à minha maneira.



                         

A segunda - irmã da minha mãe - me ensinou que amor, solidariedade e compaixão a gente tem ou não. E dos que não tem, não se cobra! Ensinou-me a rir, a ver o lado leve das coisas e, principalmente, a ser autêntica e fiel a mim mesma.


                         

Durante 03 anos turbulentos, porém necessários da minha vida, eu me perdi completamente de mim. Rasgaram minha identidade, queimaram-na e eu precisei começar uma busca intensa por tudo aquilo que eu havia construído até ali. Buscar memórias, resgatar influências... Mas nada disso é fácil quando se tem fatores externos que ainda impedem. Não é fácil desvencilhar-se de controle psicológico, principalmente quando não se tem ideia do que isso se trata, quando não percebe nem uma pontinha do que representa. Então, lá se foram mais 03 anos de luta interna para restabelecer algo que eu não sabia nem por onde começar!

Quando decidi fazer faculdade eu tinha algumas opções (Libriana...). Como não tinha condições de arcar com a mensalidade de um curso, minha alternativa era o ProUni. Na época, o Enem era bem diferente do sistema de hoje em dia (é, tô velha) e acabei conseguindo uma nota muito boa para a época e, principalmente, para a nota mínima exigida na Faculdade aqui da minha cidade (minha única opção, já que a essa altura eu já tinha meu filho - com 2 anos de idade - e condição alguma de estudar fora da cidade). 

Mesmo assim, minhas opções (na época colocávamos 5) ficaram, em maioria, dentro da área de Educação. 

Caso você venha me perguntar se estou feliz na área, vou ser obrigada a responder com um sonoro "depende". 
Eu sou formada em Pedagogia, fiz uma pós em Supervisão Escolar e em Gestão de Ensino, sou servidora pública do município de Rio das Flores, onde atuo como docente e, do município de Valença, onde atuo como Supervisora Escolar. 
Amo dar aula. Gosto da Supervisão.

Em sala de aula é onde eu me realizo pessoalmente. É onde eu "mudo o mundo". Em cada ano trabalhado, passam por mim, uma média de 30 alunos, cada qual com suas histórias individuais, sua bagagem - tanto de conhecimento, quanto emocional. São 30 crianças/adolescentes que eu sinto diretamente as mudanças que faço na vida deles e, infinitamente, eles na minha. 



Com cada um eu conheço uma realidade que vai além do que se encontra nas manchetes de jornais. Afinal, como já disseram "os olhos são a janela da alma", e é, justamente, olhando diretamente nos olhos de cada um, que conheço suas verdades. E, a partir dali, posso fazer uma pontinha para ajudar na formação de cada um deles. Ser influência em suas vidas. 

Porque "às vezes eu falo com a vida, às vezes é ela quem diz"!


Eu mudo o mundo quando reencontro um aluno que está três vezes maior do que eu (tá, não é difícil!) e ele ainda me abraça e agradece por algo que falei anos atrás. Mudo o mundo quando, ainda dentro de sala, recebo um bilhete de um aluno agradecendo por tê-lo ensinado a escrever - no 4º ano. Mudo o mundo quando vejo o brilho nos olhos de algum aluno após aprender algo novo, ou quando mostro outro lado de um conteúdo que ele já "decorou" mas nunca havia assimilado. Mudo o mundo quando paro a aula porque algum aluno está mal por algo que aconteceu em casa e ele precisa falar sobre e, a partir de sua fala, conversamos sobre outros tantos temas... Quando ensino para a vida e, não, pra conseguir nota na prova ou passar de ano. Quando explico o motivo do aluno precisar de mais um ano naquela série e não, simplesmente o reprovo. Quando eles chegam na aula e me dizem que ensinaram seus pais/avós/tios algo que aprenderam na aula. Quando eles aplicam no dia a dia o que conversamos. 
Mudo o mundo quando consigo que um aluno compreenda a importância de ser independente financeiramente mas, sobretudo, quando ele, de fato, entende o quão importante é SER nesta vida! Eu mudo o mundo em cada dia letivo, desde o momento em que sento para realizar o planejamento da aula, até o encerramento daquele ano para, no ano seguinte, começar tudo novamente!


"Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro!"


Eu não tenho dúvidas de que esta é minha vocação. Eu lamento, reclamo, choro, me canso... É muito trabalho para pouco reconhecimento e, cada dia que passa, as coisas parecem não caminharem para uma melhoria! Não é fácil. Não é nem um pouco fácil. É frustrante, inclusive. Muitas vezes preciso decidir entre "pagar para trabalhar como quero" ou "trabalhar com o que dá", e isso desestimula. Não nego que penso todos os dias em desistir e buscar uma outra função em que posso, também, continuar fazendo a diferença que acredito fazer. Diferença esta, que não preciso da aprovação de outrem, pelo contrário, é algo extremamente interno. Mas... Ainda não sou capaz de jogar tudo pro alto, o amor pelo que faço, mesmo algumas pessoas achando isso inacreditável, é imenso!


Porém, voltando à frase que deu início a este relato: eu não vim ao mundo a passeio! E nessas horas de completa frustração, confesso que até gostaria de ter vindo. Penso que são mais felizes aqueles que não enxergam as dores do mundo. Ou que simplesmente conseguem passar por elas com um sorriso no rosto, sem se deixar abater, satisfeitos por completo com a vida que levam, felizes e leves... 

Escuto muitos dizerem que o "mundo tá chato", outros muito revoltados com toda situação política do país... Mas tem aqueles que ainda conseguem se esquivar de tudo isso. Apoiam-se em um hobby, um prazer, um estilo de vida e seguem desviando de tudo que envolva determinados assuntos. E, pergunto-me: Como conseguem? 

O mundo deve mesmo estar chato para aqueles que não podem mais escancarar seus preconceitos em qualquer lugar. Pra mim, ele está caminhando, neste sentido, como deve ser. Politicamente parece mesmo que estamos afundando. As coisas por aqui estão tão desajustadas que chegamos à conclusão de que: " se você está entendendo bem o que está acontecendo, você está mal informado!" E, diante disso, simplesmente percebo que não consigo me acomodar, que esta é a paz que eu "não quero seguir admitindo".

Sou apaixonada por livros, eles me levam a mundos que não posso ir, me abrem a mente, enriquecem meu vocabulário, meus conhecimentos... Mas uma vida só de leituras não é uma vida tão alienante quanto quem vive apenas de televisão? Salvo as devidas proporções... 

Vejo muitos leitores crescendo no Brasil (que bom!), mas como já disse Francis Bacon: "Ler sem refletir é igual a comer sem digerir". E é o que mais vejo acontecendo. De que adianta ler 100 livros por ano, se não há reflexão sobre aquilo, se deles, apenas são utilizados como entretenimento, e suas teorias nunca são revertidas em práticas? Não sei vocês, mas não faz muito sentido para mim...



Amo escrever. Não sou escritora. Apenas amo escrever! Se posso tomar emprestadas as palavras de Clarice Lispector, minha mais nova best friend forever - lidem! - eu sou "sentidora". Sim... É isso! Sempre foi isso. Não sei escrever profissionalmente e, claro, jamais terei o dom da minha bff para, além de colocar no papel meus sentimentos, ainda fazê-lo com maestria. Mas sigo fazendo... É parte da minha terapia, como sempre digo! Mas não sei medir palavras, escolhê-las com cuidado, escrever para "ser bonito". Eu escrevo o que sinto, e nem sempre o que sinto é bonito. Escrevo desde que aprendi: em cadernos que minha mãe me dava para este propósito, diários, agendas, qualquer pedaço de papel em branco, guardanapo... Então veio a internet!

Meu primeiro Blog era uma espécie de diário, só que virtual. Depois tive outros tantos. E este ano o "Aquela Epifania" completou 3 anos... Ano que vem teremos muitas mudanças aqui, mas vou contar em outro post!

O que eu quero falar sobre a escrita, é que ela faz parte do que eu sou. Para alguns, é bem estranho escrever com afinco nas redes sociais, debater, expor temas que me agradam e muitos que desagradam... Me expor! Mas já faço isso há tanto tempo que não sinto mal em fazê-lo. É natural. 

Vão para as redes sociais um resumo daquilo que sou na vida! Se falo de alguns livros é porque, sim, eu amo ler e o faço com frequência. Se falo de filmes, é porque os vejo. O mesmo com música e outras amenidades. Mas se meu sangue ferve quando levanto a bandeira do feminismo pode ter certeza que não é por modismo. Se falo de política, é porque ela move o país e que sentido faz continuar em um navio que só afunda, suando para "mudar o mundo" e de boca fechada? 

"Paz sem voz não é paz, é medo!"

Não é fácil equilibrar ativismo com as coisas boas que não quero que se perca dentro de mim. Colocar na balança a fúria de um mundo desigual e doente, com meus sonhos e as coisas boas que são necessárias dizer às pessoas todos os dias para, assim, sobrevivermos por aqui. 



Crédito da Imagem

As redes sociais são a ponte para atingir o maior número de pessoas que conseguimos. Para fazer com que adolescentes tenham a oportunidade de aprender com as conquistas que alcançamos após nossos erros e pelejas. Pois, se é num mundo conectado em que eles vivem e, se neles eu pretendo chegar, é a língua deles que eu tenho de falar! Então eu falo! 

Falo o que vivi, o que aprendi, o que superei, o que o feminismo me ensinou e o que aprendo com ele a cada dia. Falo sobre sonhos, sobre luta, sobre SER, sobre a importância da mulher ter voz e representatividade em todas as mídias. Falo sobre o que eu tenho vontade de falar, com responsabilidade, sim, pois, como eu disse, eu escolhi ser Educadora nesta vida. Mas dentro daquilo que eu acredito, que eu tenho como verdade. Isso quer dizer que ela é imutável e absoluta? De forma alguma. Fosse assim eu ainda seria a mesma de tantos anos atrás. E, justamente por permitir me desconstruir a cada dia, é que deixo a porta aberta para o que vem do outro sempre. E, na medida que penso que contribuo com algo para a vida de alguém, muitos "alguéns" contribuem na minha.

Porém, por ter algumas certezas bem construídas e defendê-las com fundamentos que busquei e trabalhei dentro de mim durante anos, isto confunde algumas pessoas que levam como se eu estivesse aqui no intuito de doutriná-las, de convencê-las, persuadi-las. Enquanto, na verdade, eu estou aqui - apenas - expondo minhas vivências, opiniões, posicionamentos. 

A fala nas redes sociais nada mais são do que combustível para o que acontece off-line. Afinal, o alcance on-line é imensuravelmente maior do que a caixinha em que vivemos. Assim sendo, mais e mais vivências nós alcançamos e, consequentemente, tomamos gás para mudar a forma como conduzimos o lado de cá da tela. Toda essa interação é significativa e positiva demais. Mas não é fácil. Dá uma gastura que só!  Tem que ter ânimo, estômago. É empoderamento diário para não sucumbir. É equilíbrio constante para não perder a linha e energia pra não inverter os pólos. É querer. É didático, é pedagógico, é vital, é explícito, é realmente acreditar que se está construindo resultados diferentes diariamente e perceber isso no dia a dia em cada comentário, mensagem, conversa que se tem. É libertador! 

E não há libertação sem enfrentamento. 




Liza AlvernazEliza Alvernaz |  Twitter - Skoob |  Todos os posts do autor
Pedagoga, especialista em Supervisão Escolar e Gestão de Ensino. Leitora compulsiva, libriana desastrada, apaixonada por filmes e séries, viciada em internet e corujas. Mora no interior do Rio de Janeiro, mas não desiste de ganhar e mudar o mundo!





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Um comentário:

  1. O que dizer após ler tanta verdade ,porque eu conheço a blogueira pessoalmente ,como não ter vontade de pegar ela pela mão e pedir ,me ensina um pouco a viver de verdade ?A ser eu ,sem me incomodar com o que acham desde que eu não esteja prejudicando ninguém.Vontade de perguntar para ela e escutar porque ela fala mesmo ,será que eu ainda tenho jeito ?Será que algum dia eu vou perder o medo e ser eu de novo ?Será que você nesse tempo que me conhece ,conseguiu ver onde eu parei e virei "isso"?Você é extraordinária , livre ,leve , vive como quer e um dia eu fui assim ,talvez não pelos mesmos motivos que você ,mas para me rebelar ,então não foi com alegria e personalidade ,foi pra cutucar mesmo ,os que me feriam .Parabéns por não ter se deixado contaminar pela parte podre do mundo ,por trazer através de seus textos ,a vontade de pegar uma mochila e ir recomeçar bem longe de tudo e todos ,como se estivesse renascendo .Obrigada,por mais um texto ,que provoca uma imensa catarse ,eu tenho certeza em muitos que tiverem o prazer de ler .

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