segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Vamos falar do "Amor e Sexo"!

Heeey, tudo bem?

Pois é, toda vez que eu falo que NÃO vou falar sobre determinado assunto, logo depois cá estou eu falando sobre ele. A polêmica da vez é o programa "Amor e Sexo" que foi exibido na quinta-feira, 26.  Trazendo o tema "feminismo" como pauta principal, o programa agradou muitas ativistas, mas deixou muitas questões a serem discutidas. Vamos a elas então!
Fiz um post no facebook estranhando o tanto de feministas favoráveis ao programa e recebi alguns comentários (até pelo whatsapp) de diferentes tipos: concordando comigo, discordando ferozmente e repensando. 

Pra quem não faz ideia do que eu estou falando, explico. A Tv Globo tem um programa apresentado pela Fernanda Lima, que retornou agora para mais uma temporada. A proposta do programa, segundo o mesmo, é a seguinte: 

"A sexualidade é abordada de uma maneira direta, mas sutil. Apresentadora, convidados famosos e a plateia falam sobre a liberdade individual, diversidade e respeito nos relacionamentos, estimulando o diálogo entre as famílias."

No programa, uma bancada fixa formada por Otaviano Costa, José Loreto e Mariana Santos dividem espaço com outras personalidades que brincam, interagem com a apresentadora, fazem questionamentos e respondem também. É um programa leve e, na maioria das vezes, divertido. Mas é entretenimento e não passa disso. Pelo que dá pra perceber, nem tem o interesse de ser mais que isso.

O problema é quando um programa de puro entretenimento toma propriedade de um tema bastante sério e faz chacota dele em rede nacional. Sim, foi isto que aconteceu.

A música de abertura e a "encenação" de mulheres tirando o sutiã e queimando-o, remetendo de forma carnavalesca ao Bra-Burning da década de 70 foi de uma vergonha alheia sem tamanho. 

A partir daí, foi uma sucessão de erros. Otaviano Costa, quando a apresentadora - em um momento de colocação muito acertada - disse que naquela noite os homens iriam ouvir, chegou a dizer que não concordava com este posicionamento. Que primeiro deveríamos (nós, mulheres) ouvir o que eles tinham a dizer, e depois nos posicionar contra ou a favor. Gabi Amarantos deu um corte também acertado, lembrando-o que a mulher sempre esteve em posição de ouvi-los, que agora era hora do contrário. Mas a vergonha já estava formada. 

O programa todo girou em torno de dizer ser empoderador ser "vadia, piranha" e demais adjetivos do tipo. Os mesmos adjetivos que o feminicida de Campinas usou em sua carta, lembram? 

Ok, vamos por partes.

Eu não sou contra falarmos de feminismo na Globo. Não vou abrir aqui um debate a respeito de capitalismo. Não vou pautar meu texto no sentido de achar que o problema é a Globo estar dizendo o que é machismo e o que não é (sim, vi disso por aí). Eu penso extremamente o contrário. Penso que temos que ocupar todas as mídias possíveis. Temos que estar em todos os lugares, falando para todas as pessoas.

Tenho muitas amigas feministas, muitas conhecidas também. E não vou ser hipócrita de achar que todas elas trilharam o mesmo caminho de conhecimento da causa. Sabemos que não. Elas sabem que não. 
Algumas abraçaram o feminismo por instinto, outras vão conversando com uma e outra, outras entendem pelo que veem nas redes sociais... E assim é com todo mundo. E, assim sendo, não podemos negar que a minoria leva o feminismo como estudo. E tudo bem!!! 

Mas, mesmo estando tudo bem, mesmo o mais importante ser você entender os conceitos principais que buscamos - "fim da hierarquia de gênero" e "coletivismo" - não podemos renegar que a maioria das mulheres estão mesmo é em frente da TV. E, se lá estão, qual o melhor lugar para falarmos de feminismo? 

É por isso, e somente por isso, que apoio termos de forma didática tudo o que for possível sobre o assunto, em todos os programas da tv aberta. 

Então, minha questão não é estar e onde está. Minha questão é como está. 

Muitas dessas mulheres que assistiram ao programa na quinta-feira nunca tiveram acesso (por falta de interesse ou conhecimento), à obras de Simone de Beauvoir, Audre Lorde, Dale Spender e muitas outras. 

Não precisamos de um feminismo "academicista", muito menos "elitista", como gostam de falar, desde que haja diálogo e união. Mas, para haver diálogo, é necessário informação. Informação com responsabilidade, que agregue, ajude, acolha.

Não vi nada disso no programa. 

Além do que já citei, teve muitas outras vergonhas alheias que não vou detalhar, vou partir para o que considero mais importante...

O programa levou convidadas. Entre elas, uma profissional do sexo representando a categoria que luta pela regulamentação da classe. Ok. E o outro lado?
Como um programa mostra dados importantíssimos sobre violência contra a mulher e não leva alguém para contra argumentar a regulamentação da prostituição?

Prostituição não é libertação das mulheres, é exploração. 

Levar uma nova "Bruna Surfistinha" não é mostrar a realidade do Brasil, é mostrar a exceção. E só de exceções não se passa informação! 

A maioria das mulheres não entram para a prostituição porque querem, porque acham legal. Entram porque não têm escolha, muitas vezes com menos de 18 anos. E eu não estou falando isso por achismo. 

Lutar contra a cultura do estupro, colocar fotinho no facebook para isso e aplaudir programa que leva garota de programa que ESCOLHEU esta atividade como profissão, é incoerente, pra dizer o mínimo. 

Coloquem-se no lugar de alguém que não faz ideia do que seja feminismo (sim, tem muitas). Agora me respondam com toda sinceridade: No meio de todo aquele oba-oba, vocês acham mesmo que foi possível passar uma mensagem esclarecedora do movimento?

Em dado momento, uma das convidadas, ao responder a pergunta do que era ser piranha, disse:



"Ser piranha é dar na segunda vez, mulher legal dá de primeira."


                          - Incluam aqui um emoji com a mão no queixo, por favor - 

O quão empoderador isso é? Pelamor? 

Muitas pessoas falaram que foi um avanço a Rede Globo falar sobre isso. Sinceramente? pra mim foi um retrocesso. Em 1980 (eu nem nascida era) tínhamos pautas realmente relevantes, como aborto, sendo debatidas DE MANHÃ na emissora, através do Tv Mulher. 

Mas, sejamos justos, já tivemos bons programas abordando o tema de forma inteligente em tempos atuais, como foi o caso do "Na Moral", apresentado por Pedro Bial, no ano de 2014, que levou Djamila Ribeiro (feminista) para debater com a filósofa (e contrária ao feminismo) Talyta Carvalho. Entre outros. 

No entanto, não foi a primeira vez que o programa de Fernanda Lima errou feio. Também em 2014, foi feito um programa sobre cantadas em que, entre outros erros, relativizaram assédio de forma grotesca.

Se não estão preparados para os temas, não os abordem. Deixe pra quem sabe. Simples assim!

E, de uma vez por todas, vamos entender a diferença enorme que há entre combater a exploração da mulher com ser preconceituoso com o direito da mesma em usar seu corpo para o que bem quiser. Há uma lacuna imensa aí e muita gente finge não entendê-la!

Só mais um adendo: Uma das feministas ativistas que mais admiro, é negra, estava presente no programa e o defendeu. Isso não vai fazer eu admirá-la menos, esquecer tudo o que ela já fez, falou, pelamor. Não mesmo. É só mais um assunto/motivo para eu refletir e problematizar. Afinal, a maioria das prostitutas do Brasil, são negras! Fica o questionamento.




Eu tinha muito mais pra falar, mas vamos parar por aqui. Caso ache necessário, eu volto! rs

Beijos, e até o próximo post!




Liza AlvernazEliza Alvernaz |  Twitter - Skoob |  Todos os posts do autor
Pedagoga, especialista em Supervisão Escolar e Gestão de Ensino. Leitora compulsiva, libriana desastrada, apaixonada por filmes e séries, viciada em internet e corujas. Mora no interior do Rio de Janeiro, mas não desiste de ganhar e mudar o mundo!




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