quarta-feira, 10 de maio de 2017

Resenha | O papel de parede amarelo (Charlotte Perkins Gilman)

[ALERTA DE GATILHO: DEPRESSÃO/TRANSTORNOS EMOCIONAIS E PSICOLÓGICOS]

Título: O papel de parede amarelo
Autor: Charlotte Perkins Gilman
Editora: José Olympio
Número de páginas: 112


Sinopse: Este clássico da literatura feminista foi publicado originalmente em 1892, mas continua atual em suas questões. Escrito pela norte-americana Charlotte Perkins Gilman, ele narra, em primeira pessoa, a história de uma mulher forçada ao confinamento por seu marido e médico, que pretende curá-la de uma depressão nervosa passageira. Proibida de fazer qualquer esforço físico e mental, a protagonista fica obcecada pela estampa do papel de parede do seu quarto e acaba enlouquecendo de vez. Charlotte Perkins Gilman participou ativamente da luta pelos direitos das mulheres em sua época e é a autora do clássico tratado Women and Economics, uma das bíblias no movimento feminista. Esta edição de O papel de parede amarelo, que chega às livrarias pela José Olympio, traz prefácio da filósofa Marcia Tiburi.


Olá, tudo bem?

Provavelmente eu já falei isso outras vezes por aqui mas, esta é uma das resenhas mais difíceis que eu quis fazer... Pra começar, por mais que você encontre várias classificações para essa obra, indo de "conto de terror" a "conto autobiográfico", nada fará jus a esse grande clássico da literatura estrangeira. 

Charlotte Perkins, nascida em 1860, sempre foi uma mulher muito à frente de seu tempo. Seus ideais feministas desencontravam-se de como agiam as demais mulheres da sociedade na época. 

Uma das principais pautas de sua luta sempre foi para que a mulher conquistasse sua independência econômica. 

Charlotte foi casada duas vezes. O primeiro casamento rendeu uma filha. Mas foi durante essa união que ela enfrentou uma depressão severa e, por isso, foi submetida a diversos tipos de tratamentos, das formas mais incomuns possíveis. 

É por essa grande semelhança que muitos concluem que "O papel de parede amarelo" seria um conto autobiográfico. 

E, sim, sem dúvidas concordo que ela deve ter se inspirado - e muito - nesse seu triste período de vida! 

No livro, a narrativa é feita em primeira pessoa, sob a perspectiva de uma mulher que é levada para uma casa de campo antiga, e confinada pelo próprio marido - que é médico. Ele assegura que ela está sofrendo de uma doença e que o melhor para ela é ficar lá até que se cure, sem contato com ninguém, além dele próprio, e sem realizar nenhuma atividade, nem mesmo como entretenimento.
A mulher, bastante vulnerável de início, e fragilizada, não questiona sua doença, mas gostaria de ser tratada sem o confinamento. O que, em momento algum, é permitido.

Além de já estar em uma situação de confinamento, esta mulher ainda é colocada em um quarto todo "decorado" com um papel de parede amarelo. O quarto lhe incomoda, não lhe agrada em nada, mas isso nunca é levado em consideração. 

Sem que o marido saiba, ela começa a utilizar a escrita como um escape para sua angústia. O diário torna-se seu "melhor amigo", e é neste período também que ela desenvolve uma obsessão pelo papel de parede amarelo do quarto. 

Os momentos que antes eram bastante ruins, quando seu marido precisava sair, deixando-a sozinha no quarto, passaram a ser esperados com ansiedade. Dessa forma, ela podia se dedicar às práticas de sua obsessão: analisar cada detalhe do papel, o cheiro, as tonalidades... 

Ao mesmo tempo em que o papel a incomoda, ele também é sua única forma de resistir ao confinamento. Ao mesmo tempo em que o papel lhe "agride" com sua aparência sem beleza alguma, ele também é seu ponto de apoio para buscar foco. Enquanto ele a confunde com seus detalhes, ele também lhe dá objetivo de vida.

Um dos principais questionamentos que rondam a cabeça de uma pessoa com depressão é: "viver pra quê?". Colocando-me no lugar da narradora-protagonista, imagino que uma pergunta como essa, em um lugar como aquele, deve ter rondado sua cabeça diversas vezes. E, então, ela enxerga no papel outras mulheres presas. Assim como ela. Presas.

Entre alucinações, devaneios e muita angústia, encontra padrões no papel e passa a desejar a liberdade das outras mulheres, tanto quanto deseja a sua. 

Não é novidade pra ninguém que a sociedade, até hoje, tenta (e consegue) definir "coisas de menino" e "coisas de menina". Isso não acontece apenas com roupa, brinquedo, cor... Estende-se, principalmente, à questões comportamentais. 

Já é algo naturalizado que homens devem ser mais "machões", enquanto mulheres devem manter-se sempre dóceis, sutis, delicadas. Meninas boas são as melhores, não é mesmo? (Abaixa essa saia, fecha essa perna, não fala palavrão, seja "fofinha"). 

Acontece que, durante séculos, qualquer mulher que não se enquadrasse no padrão estabelecido pela sociedade, qualquer mulher que não fosse considerada 'doce' o suficiente, em palavras mais diretas, "que não soubesse o seu lugar, o lugar que lhes era designado", eram consideradas "histéricas". 

Inclusive, a palavra "histeria" tem origem no termo grego "útero". Ou seja, o útero era o órgão considerado causador da histeria feminina. 
Porém, independente da biologia, eram mesmo os comportamentos das mulheres que eram determinantes para que suas famílias optassem por suas internações e tratamentos "incomuns".

Qualquer comportamento considerado "anormal", era levado a ser corrigido das formas mais violentas as quais julgassem necessárias. 

Da mesma forma que a "histeria" era lidada agressivamente, a depressão e demais transtornos, durante muito e muito tempo, teve a mesma negligência.

É claro que, ainda hoje, o preconceito com qualquer transtorno psíquico é muito grande. Pessoas ainda dizem que psiquiatras são para "loucos", que depressão é coisa de gente fraca, que tudo só depende de querer, de levantar e mudar... E muitas outras coisas. Mas o avanço na História é inegável. Seguimos lutando por progressos. 

Eu acredito que, mais do que com qualquer outro livro, cada pessoa terá uma experiência muito única com "O papel de parede amarelo". Vai depender de suas experiências, de suas vivências, de sua relação com os transtornos emocionais e psicológicos, com a forma com que você vê o mundo, sua liberdade... Uma série de coisas! 

Esta obra foi lançada em 1892 e, por muito tempo, foi considerada um "conto de terror". Tanto que, até hoje, há aqueles que ainda o consideram assim. 

Não desmereço a interpretação de quem assim o faz (quem sou eu!!!), no entanto, acho mais pertinente essa classificação para a época em que foi lançada, devido a todo o contexto. Atualmente já é possível ir bem além na obra e compreender que sua atmosfera, vista por muitos como "gótica", "fantasmagórica" e outros adjetivos afins, nada mais são do que a mente humana em sua forma mais nua e crua possível, quando submetida a uma situação como a retratada!

Charlotte lutou por independência econômica, trouxe mulheres pra junto dela nessa luta. Lançou outras importantíssimas obras nesses contextos. Como eu disse lá em cima, foi à frente de seu tempo e, mesmo com todos os transtornos emocionais, buscou o quanto pode pela liberdade financeira das mulheres que era, então, utópica. Casou-se novamente com um primo mas, ao descobrir um câncer de mama (inoperável na época), tomou-se pela depressão novamente e suicidou-se. 

E a mulher presa na casa de campo, no quarto com papel de parede amarelo? O que fará com tantas mulheres que vê presa no papel?

Leiam esse clássico. Esse clássico que, hoje, podemos afirmar sem qualquer dúvida: um grande manifesto em favor da mulher, dentre os percursores da literatura feminista, e abordando de forma tão envolvente, tão pessoal, tão única, a saúde emocional da mulher. E não se enganem: muito mais atual do que muitos podem supor!

Atenção: Se você sofre de depressão, ou qualquer outro transtorno, só o leia se já estiver acostumado com leituras densas, que irão realmente mexer com todas as suas memórias sobre si mesmo e suas emoções, ok!? 

Beijos e até o próximo post!

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9 comentários:

  1. Interessante o livro, que de um ponto de vista parece ser uma leitura pesada, mas ao mesmo tempo deve ter muito conteúdo e aprendizado em suas páginas. Nunca li, mas até fiquei curiosa :)

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    1. Narrativa densa, super fininho, mas vale muito a pena, Monique! ;)

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    2. As vezes sou meio lenta para ler até os fininhos kkk :P
      Mas vou tentar esse :)

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  2. Vc que me conhece um pouco ,acha que é um livro que eu possa ler ?Acha que já estou preparada para encarar uma leitura assim ?

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  3. Li porque você me indicou - como a maioria das ficções por mim lidas nos últimos tempos -, e gostei muito! Obrigada! De novo. ^^
    Concordo bastante com a interpretação como "conto de terror", entendendo "terror" como "o ato de transmitir o sentimento de terror ou horror". A sensação que eu tive foi exatamente essa: de horror! Nessa medida (lembra do seu questionamento sobre "A Bruxa"?), esse tipo de narrativa me causa muito mais terror do que monstros e fantasmas pulando de trás das coisas. Isso é o que me tira o sono e povoa meus pesadelos. rs
    Susto eu gosto de levar, mas medo, medo mesmo, dói, incomoda, perturba.
    Enfim, só comentei porque a gente comentou outro dia. E também porque eu sempre venho aqui, me delicio com os textos e nunca comento. =D

    Te amo! <3

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    1. Huuuum... Realmente não tinha pensado tanto na compreensão do "terror", nesse caso. Vi que antigamente ele foi muito comparado a Edgar Allan Poe e vi muito pouco dessa semelhança... Me prendi à essa interpretação! Obrigada por enriquecer o debate! <3 Comente sempre que quiser!!!!
      Te amo!

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  4. Todos os livros que tenham essa pauta feminista eu já corro para ler. Acho uma leitura essencial da todo mundo, não só as mulheres. Mas todos nós.

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