quinta-feira, 15 de junho de 2017

A triste história de um povo que se obriga a opinar!

Olá, tudo bem? 

Feriadão!!! Aquele momento que quem tá exausto de trabalho/estudo espera pra descansar, passear, colocar as leituras em dia, ver filmes, séries ou fazer vários nadas - quem nunca?

Ontem o filhote acordou com febre, dor de garganta, essas coisas que deixam de cama, cheio de dengo... Então, por aqui serão vários dias do combo cama-netflix-pipoca, nos intervalinhos, algumas leituras, claro! 

Mas antes de entrarmos com tudo nesses dias de preguiça total, vamos conversar um pouquinho? 

Se você possui redes sociais, principalmente facebook, já deve ter se deparado com alguns debates em posts de amigos, amigos de amigos ou, se você curte uns assuntos mais ~polêmicos~, até mesmo em seu próprio perfil já deve ter rolado algo. É claro que essa não é uma exclusividade desta rede em questão, até no instagram já contamos com perfis destinados apenas a abrirem espaço para que os seguidores opinem sobre a vida alheia de famosos (ou, como preferem dizer: sub-celebridades). 

Porém, não importa se você pediu opinião, se propôs questões para serem relativizadas, se deixou ganchos para que abrissem ali outros debates com terceiros (sem que nem se preocupem com sua participação ) não importa se você não tem por hábito ir a post's dos outros tomar esse tipo de postura e, assim, dar abertura para que o façam com você... Nada disso importa. O foco é apenas um: opinar. 

A necessidade de opinar sobre todos os assuntos, de ser detentor de uma opinião sobre todos os assuntos do mundo tomou conta da geração internética. A impressão que tenho é que, com o advento da internet e de todo o conteúdo que o tio Google pode proporcionar, abriu-se uma porta para que todo mundo pudesse ter a informação que quisesse, que procurasse, ou que simplesmente caísse em seu colo ao abrir aquele site - sendo confiável, ou não, afinal: se tá na internet é verdade =P

A possibilidade de buscar o assunto que quiser, de tomar conhecimento, mesmo que de forma extremamente superficial sobre qualquer coisa, está diplomando diversos alunos no cursinho Google da vida. Não sendo o bastante, concluir doutorado em todas as áreas possíveis, apenas com as redes sociais, é o que mais se tem. 

Juízes, médicos, jornalistas, especialistas em música, professores de todas as disciplinas e níveis de atuação... Essas, e muitas outras especializações em um só ser. Conquistadas apenas com o uso do seu computador, ou celular... Os mais disciplinados percorrem mais de um artigo no google, já sabem diferenciar uma fonte confiável das outras e levam, pelo menos, uns 3 dias para concluírem seu PhD. Os mais relapsos - ou ousados, quem sabe!? - nem disso precisam. Basta correr o olho naquele post do artista que ele confia e já tratou do assunto, ou mesmo aquele brother que fez um textão responsa sobre o assunto. Pronto: já está formado o melhor-opinador-de-todos-os-tempos-da-última-semana.

E não se espante: você pode ter dedicado 10, 15, 20 anos de sua vida estudando, se especializando, transformando toda a teoria em prática, entendendo e percebendo o que é válido ou não em sua profissão, o que funciona, o que não funciona e o que pode funcionar. Não importa quantos diplomas você tenha na gaveta - ou parede, vai saber. Não importa "quem é você na fila do pão". Vai ter sempre alguém pra desmerecer, não respeitar, achar que "disso aí todo mundo sabe", "que pra isso não precisa estudo", "que antes a opinião dele certa que seus estudos errados" ou, aquela máxima: "não importa estudos, vida acadêmica, há coisas que a gente tem que se meter e falar mesmo. 

Esse mês de junho já começou recheado de polêmicas. Passei quase quinze dias lendo dezenas de "conselhos aos professores" dos amigos do facebook. Teve até artigo de jornal nos aconselhando a tomarmos cuidado.

Pra quem não sabe do que estou falando, trata-se do livro "Enquanto o sono não vem", de José Mauro Brant, que reúne oito contos populares, intercalados por canções da nossa história cultural.

Este livro foi selecionado para compor o programa de Alfabetização na Idade Certa, sendo destinados para serem trabalhados com crianças de 6 a 8 anos. O que corresponde ao 1º, 2º e 3º ano. 

A polêmica teria tido início após professores do Espírito Santo virem à público demonstrar seu descontentamento com o livro, por conta de um conto em questão: "A triste história de Eredegalda". 

Após mostrarem-se indignadas com o MEC, com o envio de um livro com um conto "horrível" deste, com uma temática tão "absurda", outras escolas que também haviam recebido o livro, fizeram o mesmo alarde e... Pronto! Rapidamente os doutorandos - de facebook, claro - em Educação, Linguística, Letras, Pedagogia, especialistas em Didática, em Fundamentos do Ensino Fundamental, entendedores do trabalho do professor em sala de aula como mediador de contação de história... e vou parar por aqui para não ter que passar o dia escrevendo só as formações... Todos eles começaram a se manisfestar! 

Textos reproduzidos, lamentos, sofrimentos, muito ctrl c + ctrl v, opiniões de pessoas de TODOS OS TIPOS DE PROFISSÕES. E 'ai' daquele professor que tentasse rebater. Observei alguns de longe pois, como já disse, mantenho-me no meu quadrado, e se for pra tentar me impor sobre a formação de alguém, eu tomo 5 ml de semancol que essa vontade insana e desmedida vai embora na hora. 

Na história de Eredegalda, seu pai, um rei, oferta à filha para que se case e tornem sua mãe a criada do castelo. Eredegalda nega imediatamente e o pai, diante desta negativa, prende a menina em uma torre sob o castigo de só poder comer carne salgada e não mais beber água. 
Depois de um tempo, já não aguentando mais o castigo, ela aceita se casar, porém, o pai desiste da ideia e convoca três cavalheiros do reino para virem até o castelo trazer água para a menina. O primeiro que chegar, se casará com ela. Mas quando o primeiro rapaz chega, Eredegalda já está morta. 

Pois bem, este é o resumo do Conto que mais causou terror nos professores, em um Delegado e em muitos internautas. 
É pesado? É. É um tema tabu? É. É pra ser tratado como história de amor e Conto de Fadas? Não. Porque, não é um. 

O grande problema dos críticos de redes sociais é justamente não saberem duas coisas: 

1 - Falar sobre o que sabe e ouvir sobre o que não tem conhecimento.

2 - Saber a hora de parar!

A necessidade de fazer parte de todos os assuntos, todos os debates, provar ser superior em argumentos já passou dos limites HÁ MUITO TEMPO. 

Vamos fazer uma analogia:

Suponhamos que você que está lendo seja músico. 
Eu não entendo NADA de música. Sério. 
Você me mostra uma música que você fez. 

Eu posso:

1 - Gostar. 
2 - Não gostar.


Eu NÃO posso:

1 - Dizer que isso não é música. 
2 - Dizer que não é cultura.
3 - Dizer que você não tem capacidade de cantá-la.

Aconteceram todos os itens acima em relação ao livro, e muito mais. Além de colocarem à prova a capacidade do educador em atuar em sala e desempenhar um trabalho (podendo servir, inclusive, de indicador de problemas extra-murais que algum aluno possa estar passando), também negligenciaram a obra como se esta fizesse apologia ao incesto. Coisa que não ocorre em momento algum! 

Li muita gente dizendo que "as crianças poderiam chegar em casa e achar que o comportamento do pai era normal". 

Meus amores... Quantas crianças acham que suas madrastas vão lhes mandar pra floresta, com um caçador atrás para arrancar-lhe o coração? 
E vocês acham que tudo bem se elas acharem que podem ser beijadas por um desconhecido enquanto estiverem dormido ou desmaiadas? Basta abrir os olhos e ir viver feliz pra sempre com ele que tá de boa?

Ah... Pra quê aproveitar que nosso país é um dos que lideram o ranking de crianças abusadas em casa pelo pai ou padrastos e tentar utilizar uma ferramenta pra diagnosticar isso, não é mesmo? Vamos empurrar para debaixo do tapete e seguir a vida fingindo que nada disso acontece. Como eu li em uma matéria: "precisamos proteger a inocência das nossas crianças". Isso. Vamos seguir apenas lendo João e Maria, com eles jogando a bruxa na panela de água fervendo por vingança! Inocência é tudo nessa vida.

Não há problema nos Contos de Fadas, não há problema no João e Maria, nem nas princesas adormecidas. Assim como não há problema na Eredegalda. Porque, como todo trabalho realizado com contação de histórias, da educação infantil até o 5º ano, pelo menos, há um professor como mediador. 

Os livros que ficam ao alcance do aluno, são escolhidos pela escola, pela orientação, pelo professor... Os demais, são para uso do professor COM os alunos. Se a escola foi responsável o suficiente para ler o livro, perceber que havia um conto que fugia do que ela esperava e ir até a TV para criticar, ela tinha total condição de utilizar esse tempo fazendo um bom planejamento. 

Quando um professor lê para o aluno e em seguida efetua um bom trabalho, ele exerce sua função de formador. Ele mostra ao aluno, através de uma linguagem que lhe é acessível, o mundo através da tradição popular - tão rica em nosso país. 

"A literatura não faz o mundo ser como ele é, mas a nossa compreensão do mundo não pode prescindir da liberdade que a obra literária se vale para ilustrar a dimensão da condição humana. Por essa razão, não se pode aceitar que obras literárias como o livro Enquanto o sono não vem sirvam para reeditar práticas censórias de controle da leitura e da criação artística que deveriam ser apenas parte da memória histórica de nosso país."

E, para encerrar... Muitas coisas foram apontadas diante de toda essa polêmica. Quem me conhece sabe o quanto luto, defendo, apoio as causas da minha classe. Mas, dessa vez, não posso posicionar-me a favor dos colegas que fizeram ode à censura. Disse no facebook e repito aqui: falta capacitação, falta vontade mas, sobretudo,falta o "saber".

Ou será que todos que criticaram este conto, também já criticaram os outros TANTOS da mesma linha? Façam o dever de casa, senhores formandos do instagram

Um beijo,

e espero vê-los no próximo post!

Liza AlvernazEliza Alvernaz |  Twitter - Skoob |  Todos os posts do autor
Pedagoga, Supervisora Escolar, especialista em Supervisão Escolar e Gestão de Ensino. Leitora compulsiva, libriana desastrada, apaixonada por filmes e séries, viciada em internet e corujas. Mora no interior do Rio de Janeiro, mas não desiste de ganhar e mudar o mundo!















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Um comentário:

  1. É uma doença, a materialização do Walking Dead na versão Redes Sociais... Um monte de Zumbis sem cérebro...

    De matar...

    ResponderExcluir

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