segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Impressões sobre o filme "O Mínimo para viver" (Netflix)

Há alguns dias assisti "To The Bone", ou simplesmente, "O mínimo para viver", disponível na Netflix

O filme conta a história de Ellen, vivida por Lily Collins, e é salvo pela mesma. Ellen é uma jovem com sérios transtornos alimentares, capaz de contar cada caloria presente em seu prato e realizar incontáveis abdominais após cada refeição para queimar as três míseras vagens que geralmente consome. 





Ellen - que mais tarde passa a adotar o apelido, pseudônimo (?), de Eli. Mas guarda aí que já retomo esse ponto - vive com sua madrasta, seu pai (que nunca aparece - muito ocupado) e sua meia-irmã, com quem tem uma relação "de verdade". 



Sua madrasta, vivida por Carrie Preston, foi retratada pela crítica como sendo "fofoqueira e barraqueira". Não discordo. Mas, sinceramente, pelo menos para mim, ficou a impressão de que a única a olhar Ellen e entender que esta precisava de uma ajuda extrema, foi ela. Mesmo que em uma cena posterior ela demonstre-se egoísta, preocupada mais consigo e seu bem estar do que com o que seria realmente melhor para Ellen e o que a jovem precisava, foi a madrasta, com todo seu desequilíbrio e desespero, que buscou e insistiu no tratamento da jovem. 



Tal tratamento é realizado em uma clínica totalmente alternativa, com métodos diferenciados dos que estamos acostumados a ver, e encabeçado por um médico vivido por Keanu Reeves



Como eu mencionei, Lily Collins salva o filme. Os demais personagens formam-se por um amontoado de clichês e estereótipos. E, ainda sim, nenhum deles é bem construído. 

Durante a internação de Ellen, ela convive com outros pacientes que estão vivendo transtornos alimentares também. Temos uma personagem que tenta se recuperar para manter sua gravidez ( selecione esse trecho em branco para ver a informação que possui um possível spoiler), uma personagem negra e, diferente dos demais, acima do peso e que só come pasta de amendoim, outra que burla as regras da "clínica" e continua com seus hábitos pós-alimentos - chegando a fazer um trato com Ellen - mas nada disso é devidamente explorado, explicado, abordado. Uma temática tão séria, necessária de ser discutida, em minha opinião merecia atenção e responsabilidade maior ao ser retratada. 



Ellen é uma personagem introspectiva, soturna, e a interpretação de Collins está no ponto. Infelizmente o roteiro, a produção e todo o restante não permitiram que ela brilhasse mais e mostrasse tudo o que a atriz pareceu se preparar para entregar, mas ainda foi aquela que salvou o filme de ser pior. 


Senti bastante falta do tratamento nada convencional do Dr. William Beckham ser melhor explorado. Além da insistência da madrasta, Ellen aceita a internação motivada pelo suicídio de um jovem que acompanhava seu tumblr. Após ser estimulada por um professor a postar na rede social desenhos de sua realidade, a menina usou seu brilhante talento e retratou muito de sua anorexia. 

É claro que não era a intenção do professor. É claro que Ellen não imaginou que pudesse motivar alguém a acabar com a própria vida. Mas esse fato, que é apenas mencionado no filme, foi o que levou a menina a entender, num primeiro momento, que realmente precisava de ajuda. E nada, nada disso foi explorado com a atenção que merecia. Que merecíamos!

Caso alguém não saiba, Tumblr e Instagram são verdadeiros buracos sem fim para pessoas com distúrbios alimentares, tais como: anorexia, bulimia e outros.
É possível encontrar coisas inimagináveis lá, de meninas e meninos em seu limite já. É triste, é chocante, é real.

O instagram criou uma mensagem de apoio que aparece em sua tela quando você procura, ou clica em certas hashtags. Diante de um levantamento que apontou as hashtags que pessoas com tais distúrbios mais buscam na rede, a mensagem foi criada com o intuito de oferecer uma rede de apoio antes que você prossiga sua busca. 

Veja:




"O Mínimo para viver", num geral, é apenas um filme sobre uma garota que sofre de anorexia e é internada para um tratamento não convencional. O que ela pensa? O que sente? Quanto da falta de estabilidade emocional em seus núcleos familiares tem relevância em tudo isso? O que Ellen sonha? Quem é Ellen? 

Nada disso saberemos. 

E piora. Em dado momento, Ellen adota o pseudônimo (?) de Eli. Eu só queria entender o porquê disso. Se alguém tiver assistido e puder me esclarecer, ficaria muito grata. 
Não sou especialista e não estou aqui tentando fazer papel de. Pelo contrário, é como telespectadora apenas que questiono. Por que assumir outro nome ao invés de resgatar sua identidade e reforçá-la? Por que enfatizar que "Ellen" não tem nada a ver com a menina? E por que não tem a ver? Eu estou bugada até agora. 

Dr. William aparece poucas vezes, é um personagem beeeem clichê, mas são cenas acertadas. Ok!

Como não poderia faltar (mentira, poderia sim, deveria, tinha que faltar) em uma casa com algumas meninas internadas, temos também UM menino. Um único jovem. Aparentemente quase recuperado - mas também sem maiores explicações sobre o que o levou até ali - Luke, interpretado por Alex Sharp, é um cara besta, bobo, chato, irritante e levemente obcecado por Eli. 

Tudo levemente porque, como já deu pra notar, nada nesse filme passa do superficial! 

Luke já conhecia os desenhos de Eli no tumblr e, quando viu que a menina estava na mesma clínica que ele, não perdeu tempo em se aproximar. Um personagem que faz tudo pra chamar atenção, o "engraçadão", "amigão", "parceirão", até que a gente entende que - como não poderiam deixar de tentar fazer - enfiaram um boy no filme pra criar um climinha de romance e... Vejam só vocês, Ellen ser salva por esse flerte mal resolvido. 



Bléh!

Nos minutos finais, já se encaminhando para a cena seguinte de desfecho, temos uma cena bastante forte entre Eli e sua mãe. Esta cena, que vou privá-los do spoiler, foi realmente a mais forte de todo o filme e, poderia ter sido uma PUTA cena. Servindo, inclusive, de esclarecimento para muitos pontos sobre o momento de Ellen, seu ápice no transtorno, seus porquês... Mas, infelizmente, diante de toda a falta de profundidade nos temas que mereciam cuidado, essa cena (quase) foda, tornou-se apenas patética e constrangedora. 

Assisti com aquele grande "Q?" na face. 

Uma pena! 

Vivemos em um mundo onde a ditadura da magreza parece não ter fim. Isso afeta cada vez mais pessoas, principalmente jovens, que tentam se encaixar em padrões impossíveis, surreais. Anorexia, bulimia e outros transtornos alimentares podem ser reflexo dessas "exigências", dentre outros fatores. Falar sobre isso não é só necessário, como urgente!

Chega de meninas do mundo todo morrendo para tentar se encaixar em um padrão estabelecido pela mídia que não representa nem metade das mulheres do mundo. Aqui, no Brasil, as passarelas ainda representam a mulher brasileira com uma mísera numeração 34, 36... Isso não nos representa e é importante demais falar sobre isso, alertar sobre os males que tentar chegar a essa numeração pode causar. 

É preciso um trabalho urgente para resgatar o amor por nosso corpo do jeito que ele é. Buscar alterações, quando necessário e com saúde e equilíbrio. Nosso corpo é nosso templo. Devemos cuidar dele como tal! 

Não odiá-lo, não censurá-lo e empurrar dele, com a força que for necessária, as mãos da mídia que tentam sufocá-lo até que desapareça diante de todos. 

A luta é cansativa, bem mais desanimadora do que desafiante. Mas deve ser constante, diária. É mais um processo de resistência dentre tantos que já precisamos assumir. 

É preciso retomar a consciência do fundamental nessa luta: a necessidade da descolonização do nosso corpo. 

Relembre as vezes em que você e seu corpo não foram inimigos, façam as pazes e vá à luta! 
É esse relacionamento o determinante para passar por cima de tudo aquilo que tenta plastificar, não só seu corpo, como tua mente, tuas emoções, teus sentimentos. 

Você é muito mais forte do que pensa! 



Beijos e espero vê-los no próximo post.




Liza AlvernazEliza Alvernaz |  Twitter - Skoob |  Todos os posts do autor
Pedagoga, especialista em Supervisão Escolar e Gestão de Ensino. Leitora compulsiva, libriana desastrada, apaixonada por filmes e séries, viciada em internet e corujas. Mora no interior do Rio de Janeiro, mas não desiste de ganhar e mudar o mundo!





Comente com o Facebook:

2 comentários:

  1. Olá
    Sinto que o que vou dizer vai ficar meio estranho. Eu gostei do filme. Senti que ele criou uma abertura para falar sobre problemas tão sérios quanto distúrbios alimentares. Eu gostaria que fosse uma série para poder se aprofundar em tudo o que é retratado pudesse ser melhor entendido/explicado. Quem sabe não chega algo assim logo?

    Vidas em Preto e Branco

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que uma série sobre o assunto seria de suma importância! Precisamos mesmo abordar esse assunto, porém sem superficialidade alguma, visto que é algo bem sério! Acho a ideia da série muito boa, poderiam explorar mais dos sentimentos da Eli, de tudo o que a levou até ali, abordar os demais personagens e dar ênfase ao tratamento que tinha tudo pra ter um destaque bem interessante. Boa ideia! ;)

      Excluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Layout: Equipe Epifania | Tecnologia do Blogger | All Rights Reserved ©