sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Resenha | Vacas (Nem toda mulher quer ser princesa) - Dawn O'Porter

Título: Vacas (Nem toda mulher quer ser princesa)
Autor: Dawn O'Porter
Editora: HarperCollins Brasil
Número de páginas: 336


Sinopse: "Um pedaço de carne; feito para reproduzir; além da sua data de vencimento; parte do rebanho. 
Mulheres não têm que se encaixar em estereótipos. 
Tara, Cam e Stella são estranhas vivendo suas próprias vidas da melhor forma que podem, apesar de poder ser difícil gostar do que você vê no espelho quando a sociedade grita que você devia viver de um jeito específico. 
Quando um evento extraordinário cria laços invisíveis de amizade entre elas, a catástrofe de uma mulher vira a inspiração de outra, e uma lição para todas. 
Às vezes não tem problema não seguir o rebanho. 
Vacas é um livro poderoso sobre três mulheres julgando uma à outra, mas também a si mesmas. Entre todo o barulho da vida moderna, elas precisam encontrar suas próprias vozes."



Eu sempre ressaltei aqui - e em todos os lugares que eu tive oportunidade - a importância da ficção na vida da gente. As frases "a vida imita a arte" e/ou "a arte imita a vida" não são à toa. 

A realidade está, constantemente, retratada na ficção literária, já que as histórias que tanto amamos ler são ambientadas dentro de certa sociedade e cultura. Essa linha que separa realidade e ficção permite que a gente observe diversas problemáticas sociais com um olhar atento e crítico. Esteja a trama situada no passado, presente ou futuro, sendo uma distopia ou utopia, é possível aproveitar cada leitura tirando o máximo de proveito de seus personagens, suas emoções, suas histórias... E, a partir dessa observação, conseguimos traçar um paralelo com a realidade e identificar mudanças que precisam ser feitas, que já foram feitas ou que não queremos fazer em nossas vidas. Esse tipo de posicionamento e muitos outros são possíveis com uma simples leitura, algumas vezes iniciada sem a menor pretensão de nada além de algumas horas de puro entretenimento. 

Em 1949, Simone de Beauvoir escreveu o livro "O Segundo Sexo" onde analisa, de maneira nunca antes feita, a situação da mulher na sociedade e a condição feminina nas esferas psicológicas, sexuais e políticas. É deste livro que vem a tão famosa frase "não se nasce mulher, torna-se" quando Beauvoir, com toda sua maestria, relata a forma como a sociedade dissemina muito mais as características que formam a mulher, do que de fato a natureza o faz. Sem dúvidas uma obra de suma importância, não à toa, sendo considerada até hoje um dos mais importantes clássicos feministas. 

Mas, e hoje? Quase 70 anos depois, o que mudou? Como vive a mulher hoje? Que lugar ocupa? Qual seu lugar de fala? 

Como eu comecei essa resenha dizendo, a ficção tem um papel bastante importante em nossas vidas e nem sempre nos damos conta disso. Quando estou diante de um livro com uma temática que abraça temas tão importantes para a sociedade, principalmente para a mulher - porque sim, mexe no meu calo total - é aquele momento de parar, respirar, aproveitar o máximo da leitura e vir aqui falar com vocês com a maior responsabilidade que eu puder! Então muita 'hora nessa calma'. 

Quando recebi "Vacas (Nem toda mulher quer ser princesa)", eu fiquei empolgadíssima com a possibilidade dessa leitura. 



Foi um misto de emoções: 

- O título me intrigou. Geralmente o termo "vaca" é usado de forma pejorativa e, de uns tempos pra cá, algumas mulheres - até mesmo feministas - passaram a tomar posse do termo (assim como de outros como "vadia", "periguete" etc") como se fosse algo empoderador. Não sou fiscal do feminismo alheio, mas me enquadro naquele grupo que não considera nada empoderador nisso, sabem né!? 
Mas... Logo de cara temos uma premissa muito interessante que me levou a querer conhecer e entender mais deste "Vacas", onde é dito:



"(...) Mulheres não precisam se encaixar em estereótipos. Vacas não precisam seguir rebanhos."

Huuum.... Estamos nos entendendo, Dawn O'Porter! Completando de uma maneira muito inteligente:

- Subtítulo: Nem toda mulher quer ser princesa! - Yeeeeah! Não quer e não precisa. E tudo bem! E tudo muito que bem!!!

Esse título, com a premissa do que ele queria dizer, o subtítulo, a capa, a contracapa, a orelha com trechos MARAVILHOSOS como esse:

"Você tem o poder de moldar seu próprio destino, você tem o poder de ditar como as pessoas te tratam!"

E ainda uma sinopse super interessante que vocês leram lá em cima, me deram muita vontade de lê-lo e saber o que a autora teria para nos mostrar sobre Tara, Cam e Stella: três mulheres diferentes, com vidas e personalidades diferentes, vivendo em uma mesma sociedade machista que, apesar de não estarmos falando da mesma década da obra de Simone de Beauvoir, segue subestimando a mulher, tentando de todas as formas reduzi-la ao papel único de mãe e cuidadora do lar, uma sociedade patriarcal que favorece o trabalho do homem em detrimento do da mulher, e por aí vai...

Tara é uma mãe solo. Em seu trabalho ela precisa lidar com um ambiente predominante masculino e machista onde, mesmo sendo melhor que a maioria e sobressaindo-se muitas vezes, não é devidamente creditada e precisa engolir para manter-se empregada. Claramente, também não há o mínimo respeito com seus horários em relação à saída, mesmo sabendo que ela tem uma filha à sua espera. (Alguém se identificou aí?)

Cam é blogueira, feminista, não quer casar e nem ter filhos. Esse posicionamento contraria sua mãe e irmã (o que elas têm a ver com isso? Pois é.) que tentam a todo tempo mudá-la e moldá-la para se adequar ao que consideram o ideal. 

E Stella vive um drama pessoal forte pois perdeu sua mãe e sua irmã gêmea para um câncer. Como se não fosse muito já, a assistente de fotógrafo vive sob o medo de também desenvolver a doença e nem mesmo poder gerar um filho, sendo este seu maior sonho.

Se fosse para descrever de acordo com meu gosto pessoal as três, eu diria que Tara é mais próxima da realidade, com as batalhas do dia a dia, as rotinas, os enfrentamentos diários do trabalho, de encontrar seu lugar, se posicionar, não silenciar... (salvo as devidas proporções entre ficção e realidade, claro). Minha preferida. 
Cam é uma personagem livre, já mais segura de seu lugar no mundo, tem um Blog onde pode ajudar outras mulheres que passem pelas mesmas críticas que ela enfrenta dentro da própria família por parte da mãe e da irmã. É espontânea, segura do que quer. Contrariando minha escolha, talvez seja a personagem mais fácil dos leitores gostarem. É uma personagem praticamente "pronta". 
Stella sugou todas as minhas energias. Preparem-se! Ela não está aqui para ser unanimidade mesmo. Se Tara e Cam passam por inúmeros julgamentos durante todo o livro, o julgamento de Stella vem de nós, leitores!!! Pois é... É através dessa personagem que vamos perceber o quanto fazemos parte dessa sociedade julgadora que cerca nossas personagens - literárias e aqui, da vida real. Não importa o quão feminista eu e você sejamos. O quão evoluída fulana é. Em alum momento um julgamento vai vir à tona. E é aí que a autora nos pega de forma brilhante. Colocando-nos em equilíbrio com toda a trama criada e nos levando ao pico da reflexão.

Loucura? Liberdade? Escolha? 

Leiam. Entendam. Opinem. Julguem.


"Sua atitude em relação a tudo, da vida à morte, é que o define como essa experiência será para você e para aqueles ao seu redor."

Essas três mulheres, extremamente bem construídas, vão se conectar em dado momento de uma forma bem inimaginável. E a partir dali a leitura toma um novo ar. Não dá pra desgrudar do livro, eu garanto!

Temas que precisamos falar, falar e falar sempre são discorridos no livro e nos levam à excelentes reflexões. A narrativa de O'Porter possui uma pitada generosa de humor, mas isso é um ponto bastante positivo na leitura. Em momento algum tira a seriedade do que está sendo tratado ou desmerece a importância dos assuntos. 

Maternidade compulsória, aborto, sexualidade feminina, exposição sexual viralizada, abuso sexual, Child Free, maternidade solo... e muitos outros temas importantes para nós mulheres são abordados no livro, uns com maior profundidade, outros menos. Mas todos deixando um gancho para refletirmos além da trama de "Vacas" e trazermos para nossas vidas, nossa rotina. 


"(...) Você tem o poder de moldar seu de não ser diminuída, rebaixada ou intimidada. (...)

Não se desculpe por ser quem você é e não aceite a merda dos outros. Não seja vítima. O feminismo precisa que você se posicione!"


Com finais bem amarrados, não tenho praticamente nada de negativo para falar do livro, apenas um certo incômodo em alguns momentos da leitura por alguns probleminhas de revisão. Algo que não é comum na Editora. Nada que tenha atrapalhado a leitura, sequer dificultado o entendimento. Apenas me me despertou atenção penso que justamente por não ser um costume da HaperCollins. 

Na página 117, em um diálogo entre Cam e seu pai, que ela adora, a blogueira diz que o pai é seu "ícone feminista". Este foi um momento que também me gerou profundo desconforto. 
Homens não são "ícones feministas". Homens não são sequer feministas, ok!?

E não tem jeito mais fácil de responder isso além de: Porque eles são homens! :) 

O feminismo é um movimento de mulheres, para mulheres, em busca do fim da hierarquia de gêneros. Em busca da equidade de direitos entre homens e mulheres em todas as esferas da sociedade. Então, se tem um lugar do homem dentro desse movimento é como ouvinte. É na posição de escutar o que temos para falar e, assim, poder levar para seus brothers as mudanças que eles podem promover para melhorar os espaços que dividimos. Homens não são feministas, mas podem - em meu ponto de vista - serem pró-feministas. Podem cortar aquela piadinha machista que o mano faz na mesa do bar quando nem estamos perto. Podem cortar da vida as cantadas no meio da rua. Podem entender de vez que não somos pedaços de carne e mercadorias na prateleiras do supermercado. Podem compreender que nossa capacidade cognitiva é a mesma, mas que estamos em desvantagem em alguns espaços pelos anos que nos foram tirados. Isso eles podem. 
Mas ícones feministas são milhares de mulheres espalhadas pelo mundo e pela História! Eles, não. Eles já nos "roubam" muitos espaços. Esse é nosso. Apenas nosso.

De toda forma, não foi uma imensa surpresa deparar-me com uma citação desse dito no meio do livro. Todo ele tem uma levada mais "LibFem" - se quiser saber mais sobre isso podemos conversar em outro post ;) - e as feministas liberais de fato incluem todas as pessoas por igual no Movimento. 

E, independente deste diálogo, ou de qualquer outro posicionamento mais liberal, o livro todo vale muito a pena tanto se você é feminista, quanto se nem sabe que bicho é esse.

Se me pedissem pra resumir o livro em algumas palavras, eu diria: divertido, ousado, cativante, surpreendente, reflexivo, duro, realista.

Leiam! 

Entrem nesse universo dualista de ficção e realidade, conheça as protagonistas dessa história que são, mais do que qualquer coisa, protagonistas de suas próprias vidas. E, assim como eu, permita-se aprender muito com cada uma delas e as reflexões que a autora nos leva a fazer, vezes instintivamente, vezes praticamente como fosse um tapa na cara!

Um beijo pra vocês e espero vê-los no próximo post!


Liza AlvernazEliza Alvernaz |  Twitter - Skoob |  Todos os posts do autor
Pedagoga, especialista em Supervisão Escolar e Gestão de Ensino. Leitora compulsiva, libriana desastrada, apaixonada por filmes e séries, viciada em internet e corujas. Mora no interior do Rio de Janeiro, mas não desiste de ganhar e mudar o mundo!













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8 comentários:

  1. Oi Eliza!
    Eu imaginava que a obra tinha um conteúdo sobre feminismo focando nessas mulheres. Gostei de conhecer mais sobre elas, fiquei ainda mais curiosa pela leitura da obra, parece ser ótima!
    Beijos

    www.lendoeapreciando.com

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    1. Muito boa sim, Ka! Pode colocar na lista sem medo! <3
      Beijooos

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  2. Oi, Eliza!
    Menina, eu só estou vendo comentários positivos sobre a obra, principalmente no quesito empoderamento e feminismo. Ainda não bateu a vontade de ler, mas está na lista.
    Beijos
    Balaio de Babados
    Participe das promoções em andamento e ganhe prêmios maravilhosos

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    Respostas
    1. Luiza, vale muito a pena! Quem me acompanha aqui há mais tempo sabe o quanto prezo pela honestidade em minhas opiniões e este é realmente um livro que super recomendo. Até mesmo para quem ainda não tem contato muito aprofundado com o feminismo e esteja atrás apenas de um bom entretenimento com pautas atuais e importantes de serem tratadas. Com certeza em algum momento (ou vários) você irá se identificar com as situações que essas personagens (ou alguma delas) encaram em nossa sociedade. E, tudo isso, envolto em uma trama super bem amarradinha e surpreendente mesmo. Super dica!
      Beijoos!

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  3. Não conhecia o livro e sério quero muito lê-lo agora. Achei as três protagonistas fascinantes, mas Stella foi a que me deixou mais curiosa, porque ter uma protagonista que joga na cara do leitor o próprio preconceito e julgamento dele deve ser algo de sugar as energias mesmo.
    Não concordo com você sobre em relação aos homens no movimento das mulheres, e acho maravilhoso que ela veja o pai como esse ícone porque para mim mostra o quanto ela cresceu com um homem livre do machismo impregnado na sociedade. Mas essa é a minha opinião e entendo o que quis dizer perfeitamente.
    Adorei a sua resenha, foi uma dica fascinante de leitura porque estou mesmo querendo um livro que fale sobre empoderamento feminino com mais propriedade. Vou procurar conhecer.
    E, sendo a primeira vez aqui no seu blog, com essa resenha fascinante, eu já estou amando. Parabéns pelo trabalho.

    Magia é Sonhar

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    Respostas
    1. Olá!!! Obrigada pela visita, carinho e respeito. Pelo seu comentário, acredito que você vá curtir bastante a leitura! Pode colocá-lo em sua lista de leitura, sem medo. Depois me conta o que achou, vou adorar saber!
      Bem vinda por aqui! <3 <3
      Beijooos

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  4. Oi Eliza, confesso que o título do livro me causou profundo desconforto, jamais compraria este livro antes de ler tua resenha. Após ler tua resenha eu gostei bastante da proposta, o tema feminismo é algo muito delicado e cada um tem uma opinião muito particular, fiquei bem curiosa para ler o livro, parabéns pela resenha!

    www.estante450.blogspot.com.br

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    Respostas
    1. Oi, Cássia! O título é extremamente provocador mesmo. Mas tudo se alinha durante a leitura. Uma história contagiante. Pode apostar!
      Beijoos

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