14 de maio de 2018

Resenha | O Sol na Cabeça (Geovani Martins)


O sol na cabeça






Título: O Sol na Cabeça
Autor: Geovani Martins
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 122

Sinopse: Em O sol na cabeça, Geovani Martins narra a infância e a adolescência de garotos para quem às angústias e dificuldades inerentes à idade soma-se a violência de crescer no lado menos favorecido da “Cidade partida”, o Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XXI.
Em “Rolézim”, uma turma de adolescentes vai à praia no verão de 2015, quando a PM fluminense, em nome do combate aos arrastões, fazia marcação cerrada aos meninos de favela que pretendessem chegar às areias da Zona Sul. Em “A história do Periquito e do Macaco”, assistimos às mudanças ocorridas na Rocinha após a instalação da Unidade de Polícia Pacificadora, a UPP. Situado em 2013, quando a maioria da classe média carioca ainda via a iniciativa do secretário de segurança José Beltrame como a panaceia contra todos os males, o conto mostra que, para a população sob o controle da polícia, o segundo “P” da sigla não era exatamente uma realidade. Em “Estação Padre Miguel”, cinco amigos se veem sob a mira dos fuzis dos traficantes locais.
Nesses e nos outros contos, chama a atenção a capacidade narrativa do escritor, pintando com cores vivas personagens e ambientes sem nunca perder o suspense e o foco na ação. Na literatura brasileira contemporânea, que tantas vezes negligencia a trama em favor de supostas experimentações formais, O sol na cabeça surge como uma mais que bem-vinda novidade.



Hey, gente! Tudo bem do lado daí?

Quando "O Sol na Cabeça" chegou para mim eu já estava muito curiosa com ele, tamanho era o burburinho nas redes sociais a respeito do "autor brasileiro, nascido na baixada, que estava alcançando outros países com seus contos que narram, nada menos, que a vida real desse lado do Rio de Janeiro". 

Geovani Martins nasceu em Bangu e não tem mais do que 27 anos. Mas carrega com ele tanta experiência de vida que fez das 122 páginas de "O Sol na Cabeça" um dos livros mais tocantes que eu li nos últimos tempos. 

Através de treze contos e alguns personagens extremamente realistas, conhecemos histórias que podem surpreender aos olhos dos mais privilegiados, daqueles que pouco sabem do cotidiano de uma favela. Mas, pela destreza com que são narrados, fica bem nítido que trata-se de algo bem íntimo para o autor. As nuances autobiográficas estão presentes em cada página, cada memória.

Não é um livro em que todos os leitores irão se identificar com a ambientação. É certo que a maioria a lê-lo não devem viver em uma favela. E esse é um ponto que torna sua leitura ainda mais significante. 

A representatividade está em cada pedacinho desta obra: autor, tema, ambiente, passado, presente.

O "moleque da periferia" escreveu um dos melhores livros de Contos do mercado atual e chamou atenção até de Chico Buarque, compositor consagrado por suas letras eruditas e notáveis. A "benção" do cantor foi uma contribuição e tanto para que, rapidamente, os casos e acasos de "O Sol na Cabeça" ficassem mais conhecido. Mas, é o talento do autor o único responsável por fazer com que as avaliações sigam sendo tão positivas!

Num geral, acredito que a obra trata dessa bizarra desigualdade social que assola nosso país, de como as pessoas que vivem à margem da sociedade acabam, lamentavelmente, acostumando-se com o lugar em que vivem, a maneira que vivem...

Em um dos Contos, Geovani chega a citar que, apesar de ser considerado um privilégio morar em uma das favelas situadas na Zona Sul do Rio de Janeiro, quando comparado às demais favelas das outras regiões, ele acredita ser ainda pior, afinal, todo santo dia é preciso ver escancarado em sua frente as gritantes diferenças de toda riqueza dos moradores do "asfalto", e eles, os "favelados". 

Ainda neste mesmo Conto, que leva o nome de "Espiral", ele cita:


“É tudo muito próximo e muito distante. E, quanto mais crescemos, maiores se tornam os muros.”


É uma realidade nua e crua em cada palavra. A leitura é muito fluída e quando a gente se dá conta já terminou o livro todo. Geovani mantém uma linguagem carregada de gírias muito característica e harmoniosa com toda a construção narrativa, o que deixa tudo ainda mais verossímil e próximo do que ele está nos contando. 

É um livro duro para os sensíveis. Realista. Necessário. Sem romantização indevida. 

Que não pare por aí!

Para encerrar minhas impressões, deixo uma frase do grupo Racionais, que também é mencionada no livro e que não poderia ser mais propícia:

"Pesadelo do sistema não tem medo da morte!"





Um beijo e espero vê-los no próximo post!



Liza AlvernazEliza Alvernaz |  Twitter - Skoob |  Todos os posts do autor
Pedagoga, especialista em Supervisão Escolar e Gestão de Ensino. Leitora compulsiva, libriana desastrada, apaixonada por filmes e séries, viciada em internet e corujas. Mora no interior do Rio de Janeiro, mas não desiste de ganhar e mudar o mundo!
















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4 comentários:

  1. Oi, Eliza!
    Confesso que não entendia muito bem qual era a desse livro e sua resenha me ajudou muito a entender.
    Beijos
    Balaio de Babados

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que bom que te ajudou, Luiza! O livro é ótimo mesmo.

      beijooo

      Excluir
  2. Oi, Eliza
    Eu li o livro também e gostei muito, mas fiquei com medo da mensagem nele não ter sido transpassada a mim corretamente. Como não sou muito de ler contos, fiquei com essa impressão. Ainda assim amei porque ele traz um lado verdadeiro que eu nunca presenciei morando aqui em Brasília.

    Beijos
    http://www.suddenlythings.com

    ResponderExcluir

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